Redação Plenax – Flavia Andrade
Interrupções da respiração durante a noite podem reduzir a oxigenação e provocar sobrecarga no organismo ao longo do tempo
Roncar ocasionalmente pode acontecer durante um quadro de gripe ou obstrução nasal, mas quando o problema se torna frequente, é importante investigar a causa. O ronco ocorre quando o ar passa por uma via aérea parcialmente estreitada e pode ser um dos sinais da apneia obstrutiva do sono, distúrbio caracterizado por episódios repetidos de redução ou interrupção da respiração durante o sono.
De acordo com a otorrinolaringologista Raquel Rodrigues, do HOPE, o ronco recorrente deve ser observado principalmente quando vem acompanhado de outros sintomas.
“Ele pode ser um sinal de alerta para a apneia obstrutiva do sono. Durante o sono, a musculatura da via aérea relaxa naturalmente, mas, em algumas pessoas, esse relaxamento é maior e provoca um estreitamento que dificulta a passagem do ar”, explica.
Além do ruído durante o sono, o estreitamento das vias aéreas pode provocar episódios de redução da oxigenação. Como consequência, o organismo precisa realizar um esforço maior para manter suas funções, o que pode representar uma sobrecarga para o sistema cardiovascular.
“Durante a noite, o organismo deveria estar em repouso. Quando ocorrem episódios de apneia e há redução da oxigenação, o corpo precisa trabalhar mais. Ao longo do tempo, isso pode aumentar a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular”, afirma a médica.
Apneia e saúde cardiovascular
A apneia obstrutiva do sono pode estar associada a um maior risco de hipertensão arterial, arritmias, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), especialmente quando está relacionada a outros fatores de risco, como diabetes e obesidade.
Os efeitos também podem aparecer em outras áreas da saúde. Segundo Raquel Rodrigues, noites de sono de baixa qualidade podem interferir no metabolismo, na glicose, no colesterol, na memória, na cognição e no humor.
“Essas consequências geralmente acontecem a médio e longo prazo. Além disso, uma noite de sono sem qualidade também pode afetar o metabolismo, a glicose, o colesterol, a memória, a cognição e o humor, fatores que podem contribuir para outros impactos na saúde”, ressalta.
Um dos sinais que merecem atenção é a sonolência excessiva durante o dia. Adormecer com facilidade enquanto assiste à televisão, lê ou permanece em situações que exigem concentração pode ser mais do que uma característica individual.
“É comum a pessoa dizer que dorme em qualquer lugar, mas isso pode esconder uma sonolência excessiva. Quando o sono noturno não tem qualidade, a consequência aparece no dia seguinte”, afirma a especialista.
Irritabilidade, alterações de humor, dificuldade de concentração e falhas de memória também podem estar relacionadas ao sono fragmentado. Em pessoas com apneia, os episódios repetidos de interrupção da respiração podem impedir que o organismo mantenha um sono contínuo e reparador.
Diagnóstico depende de avaliação médica
A intensidade do ronco, isoladamente, não permite determinar a gravidade de uma eventual apneia. Por isso, a investigação médica é importante quando há suspeita do distúrbio.
A polissonografia é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico dos distúrbios respiratórios do sono. O exame permite identificar episódios de apneia e hipopneia, caracterizada pela redução parcial do fluxo respiratório, além de avaliar a oxigenação durante o sono.
“O exame permite quantificar esses eventos, avaliar a oxigenação e, dependendo do tipo de polissonografia, também analisar parâmetros como o batimento cardíaco e a atividade cerebral durante o sono. Com essas informações, é possível confirmar o diagnóstico e classificar o quadro como leve, moderado ou grave”, explica Raquel.
Existem diferentes modalidades de polissonografia. Algumas são realizadas em laboratórios do sono, com monitoramento mais completo, enquanto outras podem ser feitas em casa, utilizando equipamentos específicos.
“O tipo adequado será definido de acordo com a suspeita clínica e as características de cada paciente”, orienta a médica.
Excesso de peso é um dos fatores de risco
Sobrepeso e obesidade estão entre os principais fatores associados à apneia obstrutiva do sono. O risco também pode aumentar com o envelhecimento, sedentarismo, características anatômicas das vias aéreas, fatores genéticos e alterações na musculatura da região.
Hábitos de vida saudáveis podem contribuir para a prevenção e o controle do problema.
“Ter um peso adequado, praticar atividade física regularmente, não fumar e evitar o consumo de bebida alcoólica são medidas importantes tanto para o controle da apneia quanto para a saúde cardiovascular como um todo”, afirma.
O tratamento depende das características e da gravidade de cada caso e pode envolver mudanças no estilo de vida, aparelhos intraorais, acompanhamento fonoaudiológico, procedimentos cirúrgicos e equipamentos que auxiliam na manutenção da via aérea aberta durante o sono.
Para a especialista, a atenção aos sinais é fundamental, principalmente quando o ronco frequente está associado a sintomas durante o dia.
“Investigar o ronco é fundamental, especialmente quando ele é frequente e vem acompanhado de sinais como sonolência durante o dia e cansaço. O diagnóstico da apneia do sono e o acompanhamento adequado permitem controlar a condição e reduzir seus impactos na saúde ao longo do tempo, inclusive sobre o sistema cardiovascular”, finaliza.

