Redação Plenax – Flavia Andrade
Jornada ampliada está presente em 62% das escolas estaduais e também ganha espaço no Ensino Fundamental; para famílias, modelo representa educação e uma importante rede de apoio
Para Fernanda Fonseca Alves, de 32 anos, o horário de entrada e saída dos filhos da escola interfere diretamente na sua rotina de trabalho. Diarista e mãe de duas crianças, ela conta com a jornada ampliada para poder trabalhar enquanto Emanuely, de 11 anos, e Henrique, de 3, permanecem em um ambiente que considera seguro e adequado.
“O ensino integral me ajuda muito no dia a dia para eu conseguir ir trabalhar. Eu sei que eles estão seguros, tendo um aprendizado apropriado para a idade e com pessoas maravilhosas”, conta.
Emanuely estuda na Escola Municipal Sebastião Santa de Oliveira, enquanto Henrique está matriculado na EMEI Georgia Se Castro Nogueira Borges. Embora os dois estudem na rede municipal, a experiência da família ilustra uma das dimensões do ensino em tempo integral que vai além da educação: o impacto da jornada ampliada na organização da vida familiar.
“A escola integral se tornou minha principal rede de apoio. Consigo trabalhar tranquila, sabendo que eles estão bem”, resume Fernanda.
Na Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul, a oferta de educação em tempo integral vem crescendo nos últimos anos. Segundo dados apresentados pelo governo estadual, o modelo já alcança mais de 43 mil estudantes e está presente em 62% das escolas da rede, com jornadas de sete a oito horas.
A política ganhou força inicialmente no Ensino Médio, especialmente por meio das chamadas Escolas da Autoria, e passou a avançar também sobre o Ensino Fundamental.
A estratégia busca ampliar o tempo dedicado à aprendizagem justamente em uma fase considerada fundamental para a formação dos estudantes, quando são desenvolvidas habilidades como leitura, escrita, raciocínio lógico e convivência social.
Mais tempo na escola exige uma estrutura diferente
A ampliação da jornada escolar, no entanto, não consiste apenas em manter o aluno por mais horas dentro da escola.
Para funcionar adequadamente, o modelo exige uma estrutura capaz de atender os estudantes durante todo o período, com alimentação, acompanhamento pedagógico, atividades esportivas e culturais, tecnologia e espaços de convivência.
“A proposta é que a escola deixe de ser apenas o lugar onde o aluno assiste às aulas e passe a funcionar como um espaço mais amplo de formação, convivência e construção de perspectivas para o futuro”, afirma o governador Eduardo Riedel, do Progressistas.
A expansão também aumenta a necessidade de investimentos em infraestrutura e pessoal. Refeitórios, cozinhas, quadras, laboratórios, conectividade, materiais pedagógicos e profissionais em quantidade suficiente passam a fazer parte da estrutura necessária para uma jornada de sete ou oito horas.
Por isso, além de acompanhar o número de matrículas, a avaliação da política precisa considerar indicadores como aprendizagem, frequência, aprovação e permanência dos estudantes.
Mais horas na escola, por si só, não garantem melhores resultados. O impacto depende da qualidade das atividades desenvolvidas nesse período adicional.
Quando a escola também vira rede de apoio
Para muitas famílias, a principal mudança provocada pelo ensino integral aparece fora dos muros da escola.
Quando a criança permanece apenas parte do dia na unidade, pais e responsáveis precisam organizar os cuidados durante o restante do período. Para trabalhadores informais, famílias sem uma rede de apoio próxima ou casas em que os adultos trabalham em período integral, essa tarefa pode representar um obstáculo para manter ou ampliar a atividade profissional.
Essa responsabilidade frequentemente recai de maneira mais intensa sobre as mulheres, que acabam precisando adaptar sua jornada de trabalho aos horários dos filhos.
Nesse contexto, o ensino em tempo integral pode cumprir simultaneamente uma função educacional e social.
“Quando a criança permanece na escola durante sete ou oito horas, a família ganha maior previsibilidade. Pais e responsáveis sabem que, naquele período, o estudante está alimentado, acompanhado e participando de atividades educativas”, afirma Riedel.
Para Fernanda, essa previsibilidade significa poder sair para trabalhar com mais tranquilidade.
Para os estudantes, a rotina vai além das aulas
Aos 11 anos, Emanuely, conhecida pela família como Manu, está no 5º ano e percebe o ensino integral a partir das atividades que fazem parte de seu cotidiano.
“Eu gosto muito das aulas de Matemática e Português. São as matérias que eu mais gosto de estudar”, conta.
O vôlei também está entre suas atividades preferidas, assim como os momentos de recreio, quando pode conversar e brincar com os colegas.
A estudante também destaca a alimentação e o relacionamento com os profissionais da escola.
“A comida é muito boa e todo mundo trata a gente com muito carinho. Eu me sinto acolhida aqui.”
Formação começa antes do Ensino Médio
A expansão do tempo integral para o Ensino Fundamental também está relacionada à tentativa de fortalecer a formação dos estudantes desde os primeiros anos da trajetória escolar.
Habilidades como interpretação de texto, resolução de problemas, trabalho em equipe e capacidade de adaptação são desenvolvidas ao longo de todo o processo educacional e podem influenciar etapas posteriores da formação.
Dificuldades acumuladas durante os primeiros anos, por outro lado, podem se transformar em obstáculos no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e, posteriormente, na formação profissional.
A jornada ampliada pode criar mais oportunidades para acompanhamento pedagógico, recomposição da aprendizagem e atividades que ampliem o repertório dos alunos. Para isso, porém, é necessário que o período adicional seja ocupado por ações planejadas e alinhadas às necessidades dos estudantes.
Integração entre Estado e municípios
Outro desafio envolve a articulação entre as redes estadual e municipal de ensino.
A Educação Infantil e uma parcela significativa dos primeiros anos do Ensino Fundamental estão sob responsabilidade dos municípios. Já a rede estadual concentra grande parte da oferta dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.
Com a ampliação do tempo integral no Ensino Fundamental, o Estado passa a atuar de forma mais abrangente nessa etapa e a discutir uma divisão mais articulada das responsabilidades entre as diferentes redes.
A proposta é evitar que dificuldades identificadas em uma etapa sejam transferidas para a seguinte sem acompanhamento ou intervenção.
“Esse trabalho articulado é essencial para evitar que o estudante passe de uma rede para outra carregando lacunas que poderiam ter sido identificadas e enfrentadas mais cedo”, afirma Riedel.
Expansão traz novos desafios
Em novembro de 2025, a Secretaria de Estado de Educação informava que 213 escolas estaduais já ofereciam turmas em tempo integral nos ensinos Fundamental e Médio. Para 2026, a orientação anunciada era manter a ampliação da oferta nas duas etapas.
O crescimento do modelo, entretanto, traz novos desafios. Além de ampliar a cobertura, será necessário adaptar estruturas físicas, formar profissionais, aperfeiçoar o uso do tempo adicional e acompanhar os resultados da política.
O desafio, portanto, não está apenas em aumentar o número de estudantes matriculados em jornadas ampliadas, mas em garantir que a expansão venha acompanhada de qualidade.
Para famílias como a de Fernanda, os números representam uma mudança que pode ser percebida diretamente no cotidiano. A jornada ampliada permite que ela trabalhe enquanto os filhos permanecem na escola.
Para Manu, a experiência aparece em uma escala diferente: aulas de Matemática e Português, partidas de vôlei, recreio, alimentação e convivência com os amigos.
Entre a política pública e a rotina das famílias, o ensino integral encontra seu principal desafio: fazer com que o tempo adicional na escola represente, ao mesmo tempo, mais oportunidades de aprendizagem para os estudantes e maior segurança e previsibilidade para quem precisa conciliar trabalho e cuidado com os filhos.

