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Eleições 2026: deepfakes ficam mais acessíveis e desafiam eleitores na identificação de conteúdos falsos

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Avanço da inteligência artificial amplia a qualidade e reduz o custo das falsificações digitais; especialista orienta como verificar vídeos, imagens e áudios antes de compartilhar

Vídeos de candidatos fazendo declarações que nunca fizeram, áudios com vozes praticamente idênticas às de figuras públicas e imagens produzidas artificialmente estão cada vez mais difíceis de diferenciar de conteúdos reais. Com a evolução da inteligência artificial generativa e a popularização de ferramentas capazes de criar materiais sintéticos em poucos minutos, os chamados deepfakes devem representar um desafio adicional para eleitores durante as eleições de 2026.

A tecnologia permite manipular ou produzir vídeos, fotografias e áudios de forma a fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que nunca disse ou fez. Rostos podem ser reproduzidos artificialmente, movimentos labiais alterados e vozes clonadas a partir de pequenas amostras.

Para Rodrigo Ribeiro, coordenador do curso de graduação em Inteligência Artificial e Machine Learning da UNIASSELVI, o principal avanço dos últimos anos não está apenas na qualidade dos conteúdos gerados, mas na facilidade de acesso às ferramentas.

“Nos últimos anos houve uma mudança importante: a IA generativa tornou essas ferramentas muito mais acessíveis. Hoje, modelos conseguem gerar vídeos, imagens e vozes bastante convincentes a partir de poucas fotografias, pequenos trechos de áudio e até instruções escritas em linguagem natural”, explica.

Segundo o especialista, a combinação entre evolução dos modelos de inteligência artificial, aumento da capacidade computacional e popularização de ferramentas comerciais simplificou significativamente a produção de conteúdos falsos.

“Portanto, o risco nas eleições não decorre apenas da qualidade dos deepfakes, mas também da enorme redução do custo e da dificuldade para produzi-los”, afirma Ribeiro, graduado, mestre e doutorando em Ciências da Computação.

O desafio agora é a escala

A inteligência artificial generativa já esteve presente no ciclo eleitoral de 2024. Para Ribeiro, entretanto, o cenário de 2026 apresenta uma diferença importante: praticamente qualquer pessoa pode produzir conteúdos sintéticos e distribuí-los rapidamente pelas redes sociais.

“Estamos diante de uma das primeiras eleições gerais brasileiras realizadas em um contexto no qual praticamente qualquer pessoa consegue produzir texto, fotografia, vídeo e áudio sintéticos de qualidade razoável utilizando ferramentas disponíveis comercialmente e até mesmo de forma gratuita”, afirma.

A combinação entre essas ferramentas e a popularidade das redes sociais cria um ambiente no qual um conteúdo falso pode ser produzido, publicado e alcançar milhares de pessoas em pouco tempo.

Esse cenário ganha relevância especialmente durante uma campanha eleitoral, quando declarações atribuídas falsamente a candidatos podem influenciar a percepção dos eleitores antes mesmo que a informação seja verificada.

Procurar erros na imagem já não é suficiente

Nos primeiros anos de popularização das imagens geradas por inteligência artificial, alguns defeitos se tornaram sinais conhecidos de manipulação: mãos com dedos extras, olhos desalinhados, ausência de piscadas e expressões faciais artificiais.

A evolução dos modelos, porém, tornou esses indícios menos evidentes.

“Os sistemas atuais melhoraram significativamente. Ainda existem sinais que merecem atenção, como pequenas alterações no contorno do rosto durante o movimento, diferença entre os movimentos dos lábios e a fala, sombras e reflexos incompatíveis com a iluminação da cena, textura da pele que muda de um quadro para outro, acessórios que aparecem e desaparecem, textos e objetos que se deformam e movimentos corporais pouco naturais”, detalha Ribeiro.

Nenhum desses elementos, entretanto, é suficiente para comprovar sozinho que determinado conteúdo é falso.

Por isso, a recomendação é não transformar a análise visual em uma espécie de “teste definitivo” de autenticidade. A origem do conteúdo deve ser investigada.

“Deve-se perguntar: quem publicou primeiro? O material aparece nos canais oficiais daquela pessoa? Há registro do evento completo? Veículos jornalísticos confiáveis registraram aquela declaração? Existem versões anteriores do mesmo vídeo?”, orienta.

Voz clonada exige atenção

Se as imagens apresentam dificuldades crescentes de identificação, os áudios podem ser ainda mais desafiadores.

Sistemas atuais conseguem reproduzir características individuais da fala, como timbre e sotaque, utilizando amostras relativamente curtas da voz original. Em alguns casos, podem restar sinais de artificialidade, como respirações pouco naturais, ritmo excessivamente uniforme, pausas incomuns, entonação incompatível com a mensagem ou pronúncia estranha de determinados nomes.

Também podem ocorrer mudanças abruptas de volume ou timbre.

Mais uma vez, porém, esses elementos devem ser tratados apenas como indícios. A confirmação precisa considerar a procedência e a comparação com fontes independentes.

Ferramentas ajudam, mas não garantem autenticidade

Existem serviços disponíveis ao público que podem auxiliar na identificação de conteúdos potencialmente manipulados ou produzidos por inteligência artificial, como Deepware Scanner e Hive.

Ribeiro ressalta, entretanto, que ferramentas de detecção não devem ser encaradas como uma certificação definitiva.

“Esses serviços fornecem indícios e probabilidades, não um ‘certificado da verdade’.”

Na prática, diante de um vídeo ou áudio polêmico, a recomendação é combinar diferentes métodos de verificação: consultar os canais oficiais do candidato ou da instituição envolvida, procurar a publicação original, verificar se veículos jornalísticos confiáveis registraram o episódio e comparar informações em fontes independentes.

A regra, segundo o especialista, é simples: quanto mais grave a informação, maior deve ser o cuidado antes do compartilhamento.

Conteúdo falso pode circular antes da checagem

O problema não está apenas na capacidade de criar falsificações. A velocidade de circulação nas redes sociais também favorece a disseminação da desinformação.

Os algoritmos de recomendação das plataformas são desenvolvidos para selecionar conteúdos capazes de despertar interesse e manter a atenção dos usuários. Eles não funcionam, necessariamente, como mecanismos de verificação da verdade.

“Surpresa, medo, indignação ou escândalo” podem gerar alto engajamento. Um conteúdo falso que atribua uma declaração absurda a um candidato, portanto, pode alcançar milhares de pessoas antes que jornalistas, especialistas ou as próprias plataformas consigam verificar sua autenticidade.

“Criar e publicar uma falsificação pode levar poucos minutos. Realizar uma perícia, confirmar a origem, produzir uma checagem e comunicar essa informação para milhões de pessoas demanda muito mais tempo”, explica Ribeiro.

Essa diferença de velocidade cria uma assimetria importante: o conteúdo falso pode se espalhar rapidamente, enquanto a correção exige investigação e tempo.

Como o eleitor pode se proteger

Para reduzir o risco de cair em um deepfake, o especialista recomenda alguns cuidados:

Não compartilhar imediatamente um conteúdo que provoque indignação, medo ou surpresa;
Verificar quem publicou originalmente o material;
Consultar os canais oficiais do candidato ou da instituição mencionada;
Procurar o contexto completo do vídeo ou áudio, e não apenas um trecho;
Comparar a informação em fontes independentes;
Observar sinais de manipulação, mas sem considerá-los uma prova definitiva;
Utilizar ferramentas de detecção como apoio, e não como única forma de verificação.

Para Ribeiro, o enfrentamento da desinformação exige uma combinação de diferentes estratégias.

“A resposta precisa combinar tecnologia, legislação, educação midiática, jornalismo profissional e comportamento responsável dos próprios usuários.”

Em um cenário eleitoral marcado pela popularização da inteligência artificial, a capacidade de identificar uma falsificação deixa de depender apenas de perceber uma imagem estranha ou uma voz artificial. O principal cuidado passa a ser desenvolver o hábito de questionar a origem, buscar contexto e confirmar a informação antes de acreditar ou compartilhar.

A tecnologia tornou a falsificação mais acessível. Para o eleitor, isso torna a verificação uma etapa cada vez mais importante do exercício da cidadania.

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