Posted in

Harmonização facial também pode ser aliada na reconstrução de pacientes após câncer e traumas

Foto: Reprodução

Redação Plenax – Flavia Andrade

Toxina botulínica, ácido hialurônico e fios de sustentação podem ser utilizados na reabilitação para recuperar simetria, funções da face e adaptação de próteses

Perder parte do rosto em consequência de um câncer, trauma ou doença congênita pode provocar impactos que vão muito além das alterações físicas. A reabilitação desses pacientes envolve recuperar funções como fala e mastigação, mas também lidar com questões relacionadas à autoestima, à convivência social e à própria percepção da imagem.

Nesse contexto, técnicas frequentemente associadas à harmonização facial podem ganhar uma finalidade diferente da estética: auxiliar na reconstrução de estruturas perdidas e na recuperação da simetria e das funções da face.

A aplicação desses recursos na reabilitação bucomaxilofacial ganha destaque em meio à retomada do debate sobre a atuação profissional na área, após decisão da Justiça Federal que suspendeu a resolução do Conselho Federal de Odontologia sobre harmonização orofacial. Para especialistas que atuam na reconstrução facial, a discussão também ajuda a evidenciar que procedimentos popularizados no campo estético podem ter outras aplicações clínicas.

No Instituto Mais Identidade, organização sem fins lucrativos dedicada à reabilitação bucomaxilofacial, essas técnicas são utilizadas em conjunto com próteses planejadas e produzidas com tecnologia de impressão 3D para auxiliar na reconstrução de regiões da face afetadas por tumores, acidentes e outras condições.

“Quando se fala em harmonização facial, é comum pensar imediatamente em estética. Mas algumas dessas técnicas também são ferramentas importantes no processo de reabilitação. Em pacientes que perderam parte da face, o objetivo pode ser recuperar simetria, função e favorecer a adaptação da prótese, contribuindo para que essa pessoa volte a se reconhecer”, explica Luciano Dib, cirurgião bucomaxilofacial, professor e presidente do Instituto Mais Identidade.

Quando o recurso estético ganha função reparadora

A toxina botulínica, por exemplo, pode ser empregada para reequilibrar o tônus muscular e reduzir assimetrias que permanecem após cirurgias ou traumas.

Em pacientes submetidos à retirada de tumores da face, alterações ou perdas de estruturas podem modificar a dinâmica dos músculos e provocar diferenças entre os lados do rosto. Nesses casos, o recurso pode fazer parte de uma estratégia de reabilitação individualizada.

Um estudo realizado na Universidade Paulista (UNIP), sob orientação do professor Luciano Dib, documentou o uso combinado de toxina botulínica e preenchedores na reabilitação de pacientes oncológicos.

O ácido hialurônico também pode ter aplicação nesse contexto. O preenchimento pode contribuir para recuperar volumes perdidos e suavizar a transição entre os tecidos do paciente e uma prótese facial. O recurso também pode ser utilizado na correção de depressões provocadas pela perda de tecido.

Já os fios de sustentação podem auxiliar no reposicionamento de tecidos moles que perderam sustentação, tônus ou simetria após procedimentos cirúrgicos.

“São recursos conhecidos pelo público por sua aplicação estética, mas que podem assumir outra função dentro da reabilitação. Nesses casos, não estamos falando simplesmente de modificar uma aparência. Estamos buscando reconstruir o que foi perdido e oferecer condições para que o paciente retome aspectos importantes de sua vida”, afirma Dib.

Reabilitação vai além da aparência

Quando uma pessoa perde uma estrutura facial, as consequências podem alcançar diferentes dimensões da vida cotidiana. Além das dificuldades funcionais, alterações na aparência podem afetar a autoestima, os relacionamentos e a maneira como o paciente se reconhece.

Por isso, a reabilitação facial não se limita à reconstrução anatômica.

Em atividade desde 2015, o Instituto Mais Identidade atua na recuperação física, social e emocional de pessoas com mutilações faciais. Em 2025, foram realizados cerca de 1,6 mil atendimentos por uma equipe multidisciplinar formada por cirurgiões-dentistas, médicos, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais, designers e protéticos.

As próteses desenvolvidas pela instituição são planejadas para reproduzir estruturas perdidas, enquanto diferentes recursos clínicos podem ser associados ao tratamento de acordo com as necessidades individuais.

“Para alguém que perdeu parte do rosto depois de um câncer ou de um trauma, voltar a se olhar no espelho, conversar, comer e conviver socialmente envolve muito mais do que estética. O rosto está diretamente relacionado à nossa identidade. Por isso, cada recurso que ajuda a reconstruí-lo também pode contribuir para a retomada da autonomia, da autoestima e da vida social”, diz Dib.

Um novo olhar sobre técnicas conhecidas

Para o especialista, o debate atual sobre harmonização orofacial também pode contribuir para ampliar a compreensão sobre as diferentes possibilidades de utilização dessas técnicas.

A discussão, segundo ele, precisa considerar critérios como segurança, formação e responsabilidade profissional, mas também pode abrir espaço para aplicações que nem sempre são conhecidas pelo público.

“É importante que a discussão seja qualificada e considere segurança, formação e responsabilidade profissional. Mas também é uma oportunidade para mostrar que técnicas popularizadas pela estética podem ter aplicações importantes na reabilitação. Dependendo do contexto, elas não estão relacionadas à vaidade, mas à possibilidade de uma pessoa recuperar funções e voltar a se reconhecer”, conclui.

Nesse cenário, a reconstrução facial passa a ser entendida não apenas como uma tentativa de recuperar características físicas, mas como parte de um processo mais amplo de retomada da autonomia, da identidade e da vida social.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)