Redação Plenax – Flavia Andrade
Alterações nutricionais, refluxo e mudanças na alimentação podem aumentar o risco de erosão, cáries e doenças periodontais; acompanhamento odontológico é fundamental
A cirurgia bariátrica pode provocar mudanças importantes no organismo e, entre os efeitos que exigem atenção, estão possíveis impactos sobre a saúde bucal. Alterações na absorção de nutrientes, mudanças nos hábitos alimentares e o aumento de episódios de refluxo gastroesofágico e vômitos, principalmente nos primeiros meses após o procedimento, podem favorecer problemas nos dentes e gengivas.
O alerta ganhou repercussão após o caso de uma repórter de televisão que relatou ter perdido parte dos dentes depois de passar pela cirurgia. Segundo o presidente da Câmara Técnica de Dentística do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Sergio Brossi Botta, pacientes bariátricos podem apresentar maior risco de erosão dentária, cárie, doença periodontal, hipersensibilidade e alterações na mucosa oral quando não existe acompanhamento adequado.
Como a cirurgia pode afetar os dentes
Entre os principais fatores está a alteração do ambiente bucal. A redução do pH, associada à maior frequência de ingestão de alimentos com açúcar, pode favorecer o aparecimento de problemas dentários.
Outro fator é o refluxo gastroesofágico, que provoca o contato dos dentes com ácidos provenientes do estômago. Episódios frequentes de vômitos também podem contribuir para o desgaste do esmalte dentário.
De acordo com Botta, a Dentística pode atuar na recuperação dos dentes afetados em diferentes níveis, com estratégias que incluem remineralização, restaurações e reabilitação protética minimamente invasiva.
Em casos de desgaste leve ou moderado, restaurações de resina composta podem reconstruir áreas perdidas, recuperar a anatomia dos dentes, diminuir a sensibilidade e restabelecer função e estética.
Quando a perda de estrutura é mais extensa, podem ser consideradas restaurações indiretas, como facetas, onlays ou coroas cerâmicas, desde que exista indicação clínica e que os fatores responsáveis pelo desgaste estejam controlados.
Cuidados começam antes da cirurgia
O acompanhamento odontológico deve começar ainda no período pré-operatório, segundo a especialista e integrante da Câmara Técnica de Periodontia do CROSP, Dra. Janaína Bononi Rossin.
Antes da cirurgia, é indicada uma avaliação odontológica completa, com atenção especial à saúde periodontal. O objetivo é identificar e tratar problemas como gengivite e periodontite, condições que podem favorecer a progressão da doença periodontal, perda óssea e, consequentemente, perda dentária.
Também é importante orientar o paciente sobre higiene bucal adequada e alimentação equilibrada.
Depois da cirurgia, o acompanhamento deve continuar com consultas periódicas para avaliar possíveis sinais de erosão dentária, gengivite e alterações ósseas e gengivais.
Entre os cuidados indicados pelos especialistas estão o uso de flúor tópico, bochechos remineralizantes, suplementação nutricional supervisionada e controle do refluxo gástrico, além do acompanhamento com diferentes profissionais de saúde.
Adultos e adolescentes têm riscos diferentes
Segundo Janaína Rossin, adultos apresentam maior prevalência de doenças periodontais pré-existentes, perda óssea e uso de medicamentos que podem agravar a boca seca, aumentando o risco de complicações após a cirurgia.
Adolescentes, por outro lado, possuem maior capacidade de regeneração óssea e periodontal, mas podem apresentar risco elevado de erosão dentária quando existem hábitos alimentares inadequados.
“Em ambos os grupos há vulnerabilidade, mas adultos tendem a apresentar complicações mais severas pela associação com comorbidades crônicas”, afirma a cirurgiã-dentista.
Para a especialista, a prevenção e a avaliação periodontal devem receber a mesma atenção dedicada ao acompanhamento nutricional e médico.
“O cuidado com a saúde bucal deve ser considerado parte essencial do cuidado integral ao paciente bariátrico, pois garante uma mastigação saudável, possibilitando a escolha de uma dieta equilibrada que, além de qualidade de vida, proporciona saúde e autoestima”, acrescenta.
Acompanhamento deve continuar após a cirurgia
O cirurgião-dentista também deve estabelecer um programa de manutenção para acompanhar a saúde bucal ao longo do tempo.
Entre as medidas estão aplicações periódicas de flúor, orientação sobre higiene, controle do consumo de alimentos e bebidas ácidas e acompanhamento do refluxo gastroesofágico em conjunto com a equipe médica.
O monitoramento contínuo permite identificar precocemente sinais de desgaste ou outros problemas e definir o tratamento mais adequado.
A cirurgia bariátrica, portanto, não significa necessariamente perda dos dentes. Os especialistas ressaltam que os problemas bucais estão relacionados a diferentes fatores e podem ser prevenidos ou controlados com acompanhamento adequado antes e depois do procedimento.
Com diagnóstico precoce, prevenção e tratamento individualizado, é possível preservar a saúde bucal, manter a função mastigatória e reduzir o risco de progressão do desgaste e de novas fraturas dentárias.

