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Morenão volta ao centro do esporte de Mato Grosso do Sul e simboliza novo capítulo para Campo Grande

Foto: Saul Schramm

Redação Plenax – Flavia Andrade

Recuperação do estádio se conecta a uma política esportiva que reúne memória, formação, inclusão e oportunidades em diferentes regiões do Estado

Durante décadas, falar sobre o Morenão foi também falar sobre memória. O Estádio Universitário Pedro Pedrossian fez parte da história esportiva de Campo Grande, reunindo torcedores, famílias e grandes partidas.

Para Roberto Cruz de Oliveira, 61 anos, aposentado, a relação com o estádio começou em 1976, quando tinha 11 anos. Ao lado do pai, José Roberto, aprendeu a acompanhar o Operário e transformou os jogos em um ritual familiar.

“Em 1977, quando o Operário foi o terceiro colocado do Brasil, nós íamos a família toda. Meu pai levava minha mãe e meus irmãos. Os jogos eram aos domingos e às quartas-feiras. A gente ia de ônibus até a Rodoviária Velha e, de lá, para o Morenão”, relembra.

Com o fechamento do estádio, porém, as lembranças passaram a conviver com um longo período de abandono da estrutura. Às vésperas do aniversário de 127 anos de Campo Grande, comemorado em 26 de agosto, o Morenão volta ao centro das discussões sobre o futuro do esporte em Mato Grosso do Sul.

A transferência do estádio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para o Governo do Estado abriu caminho para novas intervenções e para a definição de um modelo de gestão para o espaço.

O governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, classificou o momento como um recomeço.

“O Morenão talvez seja o ícone dessa história”, afirmou.

Riedel também destacou a participação da UFMS e da reitora Camila Ítavo no processo que possibilitou a transferência do equipamento para o Estado.

Recuperação começa pelo gramado

A primeira etapa da recuperação envolve o campo. A Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul trabalha na substituição do gramado e na implantação de um sistema de irrigação.

Paralelamente, o Governo do Estado prepara a licitação para as obras de recuperação do estádio, estimadas em R$ 17 milhões.

“A gente está terminando a licitação e, daqui a pouco, começam as obras de recuperação do Morenão”, afirmou Riedel.

A proposta, entretanto, não se limita à reabertura dos portões. A intenção é recuperar o espaço, colocá-lo novamente em funcionamento e estabelecer uma gestão que permita sua utilização e sustentabilidade no longo prazo.

“É um recomeço”, resumiu o governador.

Esporte além da competição

A recuperação do Morenão ocorre dentro de uma política que busca ampliar o papel do esporte no Estado.

“O esporte também pode ser educação, inclusão, cidadania, formação, saúde e oportunidade”, afirmou Riedel.

Essa visão também aparece no Plano de Governo 2027–2030, proposto pelo candidato, que trata o esporte como uma política voltada a diferentes fases da vida.

A estratégia prevê fortalecer ações nas escolas e comunidades, ampliar a participação no interior, identificar talentos e criar condições para que atletas avancem até o alto rendimento.

Os Jogos Escolares são um exemplo desse crescimento. O número de participantes passou de aproximadamente 2,1 mil para 9,9 mil, enquanto a quantidade de municípios envolvidos aumentou de 29 para 64.

Por trás dos números estão crianças e adolescentes que encontram no esporte oportunidades de convivência, disciplina e competição — e, para alguns, o primeiro passo de uma trajetória no alto rendimento.

Do projeto social à Seleção Brasileira

Um desses atletas é Pedro Samuel Gonçalves Silva, de 24 anos.

Ele começou no judô e no jiu-jitsu antes de conhecer o wrestling, em 2014, por meio do projeto social Guerreiros de Amanhã, onde passou a treinar com o professor Agnaldo.

As primeiras competições vieram entre 2015 e 2016. A continuidade, entretanto, exigia recursos para inscrições, viagens e outros custos.

A família organizava rifas, almoços e outras atividades para financiar a carreira. Pedro também trabalhou com panfletagem e em eventos para conseguir continuar competindo.

“A gente tinha que se virar como podia”, lembra.

A realidade mudou com a entrada no Bolsa Atleta. Atualmente beneficiário do programa estadual na categoria pré-olímpico, Pedro afirma que o apoio permitiu dedicar-se integralmente ao esporte.

“E através da Bolsa Atleta a gente pôde se dedicar inteiramente ao esporte, sem necessidade desses trabalhos paralelos para poder continuar na vida esportiva.”

O investimento anual no Bolsa Atleta passou de R$ 534 mil em 2013/2014 para R$ 4,3 milhões em 2024/2025. O programa também ganhou novas categorias, incluindo atletas universitários, master, pré-olímpicos, pré-paralímpicos e pré-surdolímpicos, além do apoio aos técnicos.

Em 2026, o Governo de Mato Grosso do Sul destinou R$ 4,2 milhões aos programas Bolsa Atleta e Bolsa Técnico, contemplando 304 atletas.

Hoje, Pedro integra a Seleção Brasileira de Wrestling e mira uma vaga olímpica.

“Eu quero conseguir o que almejo não apenas para mim, mas para o Estado de Mato Grosso do Sul, que é a vaga olímpica e, posteriormente, com muito trabalho, muita dedicação, uma medalha olímpica.”

A trajetória mostra como o apoio pode interferir em diferentes etapas da formação esportiva. Antes da Seleção Brasileira, existe o projeto social. Antes da competição internacional, existe a primeira disputa. E antes do sonho olímpico, há anos de treinos, viagens, equipamentos e dedicação.

Inclusão também entra em campo

O esporte também tem sido utilizado como ferramenta de inclusão em Mato Grosso do Sul.

No paradesporto, o número de municípios atendidos passou de seis para 41, enquanto a quantidade de pessoas alcançadas aumentou de 96 para 3.677.

A expansão inclui ações como as Paralimpíadas Escolares, festivais paralímpicos e surdolímpicos e outras iniciativas voltadas às pessoas com deficiência.

Para o próximo ciclo, a proposta é ampliar ainda mais o alcance das políticas esportivas, incluindo pessoas com deficiência, idosos, povos indígenas e outros grupos vulneráveis.

Esporte chega ao interior

A política esportiva também passou a ampliar sua presença fora da Capital.

Os Jogos Abertos de Mato Grosso do Sul passaram a percorrer diferentes regiões, com competições realizadas em municípios como Ponta Porã, Maracaju, Aquidauana, Paranaíba, Naviraí e Três Lagoas.

Na fase regional de 2025, foram 1.344 participantes em 20 municípios.

A descentralização também aparece nos jogos universitários, nas ações destinadas a comunidades quilombolas e na construção de campos de futebol em comunidades indígenas de Aquidauana, Miranda, Porto Murtinho, Tacuru e Dourados.

“O Estado também pode levar o esporte até onde as pessoas estão”, afirmou Riedel.

O Plano de Governo 2027–2030 prevê ampliar núcleos esportivos comunitários, principalmente em territórios vulneráveis, fortalecer o esporte escolar e universitário, ampliar ações de inclusão, desenvolver talentos e levar estruturas esportivas a diferentes regiões.

Entre as propostas também estão o uso do esporte como instrumento de prevenção da violência e como vetor de turismo, desenvolvimento regional e economia.

Um estádio entre a memória e o futuro

Nesse contexto, o Morenão ganha um significado que ultrapassa o futebol.

A recuperação do estádio representa a possibilidade de devolver à cidade um espaço histórico, mas também de transformá-lo em uma estrutura capaz de receber partidas, grandes eventos, atividades culturais e outras iniciativas.

Para Roberto, a expectativa tem também um componente pessoal. O pai que o levou pela primeira vez ao Morenão morreu antes de poder acompanhar a reabertura do estádio.

“Meu pai faleceu e não vai ver a abertura do Morenão. Mas a expectativa é muito grande. Voltar a ver o nosso futebol voltar será muito bom, principalmente com o Operário voltando ao cenário nacional.”

Antes do fechamento definitivo, Roberto ainda conseguiu levar os próprios netos para assistir a um jogo do Operário.

“Antes de fechar de vez o Morenão eu ainda consegui levar meus netos para ver um jogo do Galo.”

A história iniciada em 1976 atravessou gerações. O menino que seguia o pai até o estádio tornou-se adulto, construiu a própria família e voltou ao mesmo lugar acompanhado pelos netos.

Agora, a expectativa é que novas gerações também possam ocupar aquelas arquibancadas.

Enquanto Roberto carrega as lembranças dos ônibus, da Rodoviária Velha, da chuva, do barro e dos jogos do Operário, Pedro constrói uma história diferente, marcada por tatames, treinos, viagens e competições.

Um representa a memória do esporte. O outro, a possibilidade de seu futuro.

É nessa passagem entre gerações que a recuperação do Morenão ganha um significado maior: não apenas reabrir um estádio, mas criar novamente um espaço onde novas histórias possam começar.

Para Riedel, o momento pode ser resumido em duas palavras: “É um recomeço”.

Para o Morenão, pode significar o retorno de uma história conhecida. Para torcedores como Roberto, a possibilidade de reencontrar um lugar carregado de memórias. Para atletas como Pedro, a construção de um futuro que ainda está em disputa.

Entre a memória de quem viveu o esporte e o sonho de quem busca chegar ao pódio, um novo capítulo começa a ser escrito em Mato Grosso do Sul.

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