Redação Plenax – Flavia Andrade
Perceber mudanças de comportamento, acolher sem julgamentos e incentivar a busca por ajuda profissional são atitudes importantes diante de situações de sofrimento emocional
Nem todo sofrimento é visível. Há pessoas que continuam trabalhando, estudando, cuidando da família e convivendo socialmente enquanto enfrentam, em silêncio, uma dor que pode ser difícil de perceber.
Com a aproximação do Setembro Amarelo e do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro, a atenção se volta para a importância da escuta, do acolhimento e da identificação de sinais de sofrimento.
Dados do Ministério da Saúde citados na matéria apontam que 15.507 mortes por suicídio foram registradas no Brasil em 2021. Naquele ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos.
Para o psicólogo clínico Luti Christóforo, de Curitiba, compreender o sofrimento de quem apresenta pensamentos suicidas exige ir além da ideia de que se trata simplesmente de uma vontade de morrer.
“Muitas vezes, aquilo que aparece como um desejo de morrer é, na verdade, um desejo desesperado de que aquela forma de viver e de sofrer deixe de existir”, afirma.
Segundo o psicólogo, falar sobre a própria dor e encontrar alguém disposto a ouvir pode representar uma possibilidade de aproximação com a vida. Ao longo de sua trajetória clínica, Christóforo acompanhou pacientes que chegaram ao consultório vivenciando pensamentos suicidas, inclusive após tentativas.
Para ele, esses casos reforçam a necessidade de levar o sofrimento a sério, acolher sem julgamentos e construir, junto à pessoa, possibilidades para atravessar momentos de crise.
Quando a dor impede de enxergar alternativas
Em períodos de sofrimento intenso, a pessoa pode ter dificuldade para perceber possibilidades além daquela situação imediata.
“É como estar dentro de uma sala escura e acreditar que aquela sala é o mundo inteiro”, explica Christóforo. Nesses momentos, segundo ele, o trabalho terapêutico pode começar pela construção de condições para que a pessoa atravesse o período mais difícil e consiga, gradualmente, voltar a imaginar possibilidades para o futuro.
Com uma atuação também fundamentada na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, o profissional considera que momentos de ruptura podem trazer à tona conflitos, culpas, relações destrutivas e expectativas que já não conseguem sustentar o indivíduo.
Nesse contexto, a psicoterapia pode contribuir para que o sofrimento seja colocado em palavras, compreendido e elaborado.
“Eu já vi pessoas chegarem ao consultório acreditando que não havia mais saída e, meses depois, voltarem a falar sobre sonhos e projetos. A psicoterapia não apaga magicamente a dor, mas cria um espaço para que ela seja colocada em palavras, compreendida e elaborada”, afirma.
Escutar também é uma forma de cuidado
A prevenção não depende apenas de profissionais de saúde. Familiares, amigos e colegas também podem desempenhar um papel importante ao perceber mudanças persistentes no comportamento de alguém.
Entre os sinais que merecem atenção estão isolamento, desesperança, abandono de atividades e projetos e falas recorrentes sobre morte ou falta de perspectivas. Nenhum desses sinais, isoladamente, permite prever um suicídio, mas mudanças significativas podem indicar a necessidade de atenção e cuidado.
O Ministério da Saúde recomenda buscar um momento e um ambiente adequados para conversar, ouvir sem julgamentos e incentivar a procura por atendimento profissional.
Para Christóforo, tentar minimizar a situação com frases como “pense positivo” ou “isso vai passar” pode não ajudar.
“Nem sempre precisamos encontrar a frase perfeita. Muitas vezes, uma pergunta verdadeira, ‘você está realmente bem?’, seguida da disposição para ouvir a resposta, é muito mais importante.”
Em situações de risco imediato, a pessoa não deve ser deixada sozinha e é necessário buscar atendimento de saúde ou de emergência.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza
Para o psicólogo, uma das principais barreiras à prevenção ainda é o estigma relacionado ao pedido de ajuda.
“Precisamos abandonar a ideia de que pedir ajuda demonstra fraqueza. Conseguir dizer ‘eu não estou dando conta sozinho’ pode ser uma das atitudes mais importantes que uma pessoa toma em sua vida”, destaca.
A prevenção também acontece fora das campanhas de setembro: em uma família que percebe uma mudança de comportamento, em um colega que nota a perda de interesse pelo futuro ou em alguém que encontra espaço para admitir que precisa de ajuda.
“A vida nem sempre precisa fazer sentido hoje. Em alguns momentos, precisamos criar condições para que ela volte a fazer sentido amanhã. A esperança nem sempre chega como uma grande revelação. Às vezes, ela chega como uma conversa, uma escuta, uma mão estendida ou simplesmente como alguém que permanece”, conclui Christóforo.

