Redação Plenax – Flavia Andrade
Recorde nas exportações e novas exigências dos mercados aumentam a necessidade de uma cadeia produtiva mais integrada, transparente e capaz de comprovar a origem dos animais
A pecuária brasileira encerrou o primeiro semestre de 2026 em um cenário de crescimento, com aumento das exportações de carne bovina e do número de animais abatidos. Ao mesmo tempo, mercados internacionais ampliam as exigências relacionadas à origem, sanidade e conformidade socioambiental dos produtos.
Nesse cenário, a rastreabilidade ganha espaço como ferramenta estratégica para a cadeia produtiva. Mais do que registrar informações sobre os animais, o desafio passa a ser garantir que esses dados sejam confiáveis, integrados e capazes de comprovar a trajetória e a conformidade da produção.
A partir de setembro, entram em aplicação requisitos europeus relacionados à comprovação do uso de antimicrobianos. Em dezembro, começa a valer a European Union Deforestation Regulation (EUDR), que estabelece exigências de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento.
Embora tenham objetivos diferentes, as duas medidas reforçam uma tendência do comércio internacional: não basta fornecer informações; é necessário comprovar sua origem e consistência.
“O contínuo desenvolvimento do setor amplia também a responsabilidade sobre a qualidade das informações que sustentam essa produção. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser um ativo estratégico para a cadeia”, afirma Ana Doralina, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável.
Exportações avançam
Os números do primeiro semestre ajudam a dimensionar o momento vivido pelo setor. Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, alta de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC).
A receita chegou a US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2% na comparação anual.
No mercado interno, o primeiro trimestre também registrou recorde para o período no abate de bovinos sob inspeção sanitária. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram abatidos 10,29 milhões de animais.
Com o crescimento da produção e das exportações, aumenta também a necessidade de demonstrar a origem e as condições em que os animais foram criados.
“Mais do que acompanhar o crescimento da atividade, a rastreabilidade passa a ser uma condição para que o setor consiga responder a um ambiente comercial cada vez mais orientado por informações verificáveis”, ressalta Ana.
Segundo ela, dificuldades para comprovar origem, trajetória e conformidade podem resultar em restrições comerciais, riscos reputacionais e perda de oportunidades de diferenciação e valorização da carne brasileira.
PNIB prepara nova etapa da identificação animal
O ano de 2026 também marca uma etapa importante para a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB).
O cronograma prevê, neste ano, a adequação dos sistemas estaduais e a integração das bases de dados. A partir de 2027, começa o avanço gradual da identificação individual dos animais, enquanto a obrigatoriedade antes da primeira movimentação está prevista para 2032.
A identificação individual é considerada uma das bases da rastreabilidade, mas, segundo a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, sua efetividade dependerá da capacidade de integrar as informações produzidas ao longo da cadeia.
Interoperabilidade entre sistemas, padronização e qualidade dos dados, integração das bases existentes e definição das responsabilidades de cada elo estão entre os pontos considerados necessários para transformar registros isolados em informações confiáveis.
“Não basta identificar o animal: é preciso garantir que as informações acompanhem sua trajetória, possam ser compartilhadas entre os sistemas e tenham qualidade suficiente para comprovar os atributos exigidos pelos mercados”, explica Ana.
Integração entre sistemas é desafio
A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável acompanha o processo por meio do GT de Rastreabilidade e da participação nas discussões relacionadas à implementação do PNIB.
A entidade contribui para debates sobre integração de bases, interoperabilidade e desenvolvimento de soluções junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
A proposta é apoiar uma implementação capaz de conectar informações dos diferentes elos da cadeia e gerar evidências que possam ser utilizadas para atender às demandas dos mercados.
Outro ponto considerado fundamental é a participação dos produtores. Para Ana Doralina, a rastreabilidade também pode contribuir para a regularização, a permanência na cadeia formal e o acesso a novos mercados, desde que os pecuaristas tenham orientação e condições para incorporar os procedimentos à rotina.
“A rastreabilidade pode contribuir para a regularização, a permanência na cadeia formal e o acesso a diferentes mercados, mas sua implementação precisa ser acompanhada de orientação, capacitação e condições para que os pecuaristas compreendam e percebam os benefícios associados à geração e ao compartilhamento de informações”, afirma.
Rastreabilidade como estratégia de competitividade
Para o segundo semestre, a expectativa é que a rastreabilidade avance como parte de uma estratégia que vai além do atendimento às exigências regulatórias.
Em um mercado cada vez mais orientado por informações verificáveis, a capacidade de demonstrar a origem e a trajetória da produção pode se tornar um diferencial para a pecuária brasileira.
“Juntos, é possível que ela seja mais conectada, transparente e preparada para responder às demandas de mercados cada vez mais orientados por informações confiáveis”, conclui Ana.

