Redação Plenax – Flavia Andrade
Estado alcançou 1,46 milhão de pessoas ocupadas, rendimento médio de R$ 3.727 e massa mensal de renda de R$ 6,75 bilhões; qualificação passa a ser desafio diante do mercado aquecido
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com um dos mercados de trabalho mais aquecidos do país. O Estado chegou a 1,46 milhão de pessoas ocupadas, registrou rendimento médio de R$ 3.727 e atingiu uma massa mensal de renda estimada em R$ 6,75 bilhões, maior resultado da série recente.
Ao mesmo tempo, a taxa média anual de desemprego caiu para 3%, colocando Mato Grosso do Sul entre os três estados com menor índice do país. Os números refletem uma expansão que, além das estatísticas, tem impacto direto na renda das famílias.
Um exemplo é a trajetória de Jéssica Bittencourt. Mãe de três filhos, ela enfrentou um período de dificuldades pessoais e violência doméstica antes de encontrar no trabalho uma oportunidade para reconstruir a própria vida.
Incentivada por um tio, decidiu seguir uma profissão que até então parecia distante: ser motorista de caminhão.
“No meu pós-gestação, eu queria me sentir forte, mesmo não estando forte naquele momento. Procurando força para a minha vida, eu me tornei caminhoneira”, conta.
Depois de obter a habilitação necessária, Jéssica trabalhou por cerca de um ano como motorista de ônibus, mas mantinha o objetivo de voltar às estradas. A oportunidade surgiu após passagens pela Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab).
Em uma ação de empregabilidade, encontrou uma vaga compatível com seu perfil, participou do processo seletivo e foi contratada por uma transportadora.
“Estou gostando muito e me identifico bastante com o que faço profissionalmente. A Funtrab me proporcionou isso e sou muito grata por tudo. Um trabalho que gosto e garante renda em casa”, afirma.
Renda do trabalho ganha espaço nas famílias
O desempenho do mercado de trabalho também aparece nos indicadores de renda. Com rendimento médio de R$ 3.727 em 2025, Mato Grosso do Sul ocupou a sétima posição entre as 27 unidades da Federação. Sem considerar o Distrito Federal, o Estado teve o sexto maior rendimento médio entre os estados.
O número de trabalhadores ocupados também cresceu. O contingente passou de aproximadamente 1,41 milhão em 2024 para 1,46 milhão em 2025, avanço de 4%.
Outro dado mostra o peso do emprego dentro dos domicílios. No ano passado, 80,7% do rendimento domiciliar per capita dos sul-mato-grossenses teve origem no trabalho, contra 79,5% em 2024.
O rendimento domiciliar per capita chegou a R$ 2.369, oitavo maior resultado do país. O indicador considera os recursos disponíveis no domicílio divididos pelo número de moradores.
Desemprego baixo muda perfil do desafio
A taxa média de desocupação de 3% em 2025 ficou atrás apenas de Mato Grosso, com 2,2%, e Santa Catarina, com 2,3%.
Os primeiros dados de 2026 mantiveram o cenário de um mercado aquecido. No primeiro trimestre, Mato Grosso do Sul registrou desemprego de 3,8%, enquanto a média nacional foi de 6,1%.
No período, o rendimento médio trimestral dos trabalhadores sul-mato-grossenses chegou a R$ 3.658, acima dos R$ 3.610 registrados no Brasil. Cerca de 56 mil pessoas estavam sem ocupação, embora disponíveis para trabalhar, dentro de uma força de trabalho de 1,482 milhão.
Com o desemprego em níveis reduzidos, o desafio passa a envolver também a disponibilidade de profissionais preparados para ocupar as vagas abertas.
Para quem busca emprego, a existência de oportunidades não significa necessariamente acesso imediato a elas. A formação e a experiência profissional ganham peso em um mercado que passa por transformações.
Emprego formal cresce em cinco setores
Os números do Novo Caged reforçam a expansão. Mato Grosso do Sul terminou 2025 com 419.472 admissões e 399.716 desligamentos, resultando em saldo positivo de 19.756 empregos formais.
O estoque chegou a 689.951 trabalhadores com carteira assinada, crescimento de aproximadamente 2,9% em relação ao ano anterior.
A geração de empregos ocorreu nos cinco grandes grupos econômicos. A construção liderou o saldo, com 5.873 novos postos, seguida por serviços, com 4.835; indústria, com 4.536; comércio, com 3.258; e agropecuária, com 1.256.
A expansão está relacionada a diferentes cadeias produtivas, entre elas celulose, bioenergia, proteína animal e agroindústria, além dos investimentos que movimentam setores como construção, comércio e serviços.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), a chegada de novos empreendimentos aumenta também a necessidade de mão de obra qualificada.
Qualificação se torna peça-chave
A história de Jéssica ajuda a ilustrar a importância da qualificação para acessar novas oportunidades. Para ingressar em uma profissão diferente, ela precisou obter a habilitação necessária e, posteriormente, encontrou uma vaga compatível com sua preparação.
Os dados de escolaridade também mostram uma relação direta entre formação e renda. Em 2025, Mato Grosso do Sul tinha 488 mil trabalhadores ocupados com ensino médio completo e 375 mil com ensino superior completo.
Entre os trabalhadores com ensino superior, o rendimento médio chegava a R$ 6.632. Já entre aqueles sem instrução, a média era de R$ 1.824, uma diferença superior a três vezes.
Diante desse cenário, a qualificação profissional passa a ser um dos principais desafios para acompanhar o ritmo de expansão da economia e permitir que mais trabalhadores tenham acesso às vagas com melhores salários.
Entre as prioridades apresentadas pelo governo estadual estão a qualificação profissional, a inserção de jovens e mulheres no mercado e a atração de trabalhadores. Uma das iniciativas citadas é o MS Qualifica, voltado à preparação de mão de obra.
Trabalho ganha espaço, mas desigualdades continuam
Outro indicador mostra mudanças na composição da renda das famílias. A proporção de domicílios de Mato Grosso do Sul com beneficiários do Bolsa Família caiu de 13% em 2024 para 9,5% em 2025, o equivalente a aproximadamente 102 mil domicílios.
O percentual é o quinto menor do país e ficou abaixo da média nacional, de 17,2%.
O dado, isoladamente, não permite determinar por que uma família deixou de receber o benefício, já que existem diferentes critérios de elegibilidade e outros fatores envolvidos. Quando analisado em conjunto com a expansão da ocupação, do emprego formal e da participação do trabalho na renda domiciliar, porém, ajuda a demonstrar o maior peso da atividade profissional na sustentação econômica das famílias.
Ainda permanecem desafios relacionados às diferenças de remuneração por escolaridade, sexo e raça, indicando a necessidade de políticas voltadas à educação, qualificação e inclusão produtiva.
Próximo desafio é transformar crescimento em oportunidade
Mato Grosso do Sul chega a 2026 com 1,46 milhão de pessoas ocupadas, quase 690 mil empregos formais, uma das três menores taxas anuais de desemprego do país, rendimento médio entre os maiores do Brasil e massa mensal de renda de R$ 6,75 bilhões.
Nesse cenário, o desafio deixa de ser apenas ampliar o número de empregos e passa também por preparar trabalhadores para as novas vagas e garantir que as oportunidades alcancem diferentes grupos da população.
A trajetória de Jéssica mostra o impacto que uma oportunidade pode ter além dos indicadores econômicos. Depois de um período difícil, ela encontrou uma profissão, uma vaga e uma nova fonte de renda para sustentar a família.
Os números mostram a dimensão do avanço do mercado de trabalho sul-mato-grossense. Histórias como a dela revelam o que esses dados representam na prática: emprego, renda, autonomia e possibilidade de planejar o futuro.
O próximo passo será fazer com que a expansão econômica continue abrindo caminhos para que mais trabalhadores encontrem oportunidades compatíveis com sua formação e consigam transformar o crescimento do Estado em melhoria concreta na própria vida.

