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Emagrecimento rápido exige responsabilidade e expõe riscos que o debate público ainda evita

Foto: Divulgação

Por Dra. Daniela Maria Alves Chaud*

Desconfie das soluções imediatas, questione promessas fáceis e observe o contexto antes de transformar o emagrecimento em urgência médica. A popularização de medicamentos voltados à perda de peso revela mais do que um avanço terapêutico, expõe uma sociedade cada vez mais intolerante ao tempo do próprio corpo. A obesidade é um problema real e crescente, mas a pressa em combatê-la tem levado parte da população a substituir cuidado por atalhos farmacológicos. O resultado é um fenômeno preocupante, no qual a busca por resultados rápidos passa a competir com a segurança clínica e com a própria compreensão do que significa saúde.

Os números ajudam a entender a dimensão do cenário. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, enquanto, no Brasil, dados do Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, mostram que 24,3% dos adultos já são obesos e cerca de 61% apresentam excesso de peso. Diante desse avanço, medicamentos originalmente indicados para diabetes ou obesidade passaram a ganhar protagonismo social, impulsionados por redes sociais e pela cultura estética. É compeensível o apelo dessas terapias, sobretudo quando estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstram perdas de peso superiores a 10% em tratamentos supervisionados com agonistas de GLP-1. Ainda assim, é perigoso quando evidências científicas são convertidas em modismo e descoladas do acompanhamento médico que lhes dá sentido.

O problema se agrava porque muitos desses fármacos atuam diretamente no sistema nervoso central, interferindo nos mecanismos de fome e saciedade. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso inadequado de medicamentos para emagrecimento pode provocar efeitos adversos como alterações gastrointestinais intensas, distúrbios de humor e, em alguns casos, dependência medicamentosa, especialmente quando há automedicação ou uso prolongado sem indicação adequada. Soma-se a isso o crescimento do mercado paralelo. Relatório da Organização Mundial da Saúde sobre medicamentos falsificados aponta que cerca de 10% dos produtos médicos em países de média e baixa renda podem ser irregulares ou adulterados, o que amplia riscos quando substâncias são adquiridas fora de canais regulados.

A ampliação do acesso a medicamentos representa um avanço democrático no tratamento da obesidade. De fato, negar recursos terapêuticos eficazes seria retroceder. No entanto, o erro está em tratar o remédio como solução isolada. A própria Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica afirma que o tratamento deve combinar intervenção medicamentosa, educação alimentar, atividade física e acompanhamento psicológico. Quando o medicamento substitui essas bases, e não as complementa, cria-se uma falsa sensação de cura que frequentemente resulta em reganho de peso e frustração emocional.

Outro ponto pouco discutido é o início precoce da obesidade. Estudos publicados pela revista The Lancet Child & Adolescent Health indicam que crianças com obesidade têm probabilidade até cinco vezes maior de permanecer obesas na vida adulta. Isso reforça, que o debate deveria começar antes da prescrição e alcançar políticas públicas de educação alimentar, incentivo à atividade física e regulação da publicidade de produtos ultraprocessados. Insista na prevenção, invista em educação em saúde e trate o problema na origem, porque nenhuma intervenção farmacológica consegue compensar ambientes obesogênicos que favorecem o sedentarismo e o consumo alimentar desregulado.

O emagrecimento rápido pode apresentar perigos, especialmente quando velocidade substitui responsabilidade. Medicamentos têm papel legítimo e, em muitos casos, transformador, mas precisam permanecer dentro do campo médico e não do consumo aspiracional. O futuro do combate à obesidade passa menos pela promessa de resultados imediatos e mais pela construção de uma cultura de cuidado contínuo. Se quisermos resultados duradouros, será preciso abandonar a lógica da solução instantânea e aceitar que saúde exige tempo, acompanhamento e escolhas sustentáveis.

*A Dra. Daniela Maria Alves Chaud é professora e coordenadora do Curso de Nutrição da FASIG.

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