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Educação financeira surge como aliada no combate ao vício em jogos on-line no Brasil

Foto: Freepik

Redação Plenax – Flavia Andrade

Com o crescimento acelerado das casas de apostas e o acesso cada vez mais fácil às plataformas digitais, o vício em jogos de azar já é tratado como um problema de saúde pública no Brasil. Dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indicam que cerca de 11 milhões de brasileiros com mais de 14 anos enfrentam impactos emocionais, familiares e profissionais relacionados a esse tipo de comportamento.

Em 2025, o tema ganhou ainda mais visibilidade diante da popularização dos jogos on-line e do aumento de relatos de endividamento, ansiedade e depressão. Para a psicóloga Juliana Maria Silveira, especialista em gestão de investimentos e educação financeira, a dependência em apostas apresenta semelhanças importantes com vícios em álcool e drogas.

“Ambos ativam os circuitos de recompensa do cérebro ligados à dopamina, o que pode levar à compulsão, tolerância comportamental, ansiedade e depressão. Em alguns casos, a ansiedade vem antes e aumenta a vulnerabilidade; em outros, é o próprio jogo que intensifica os sintomas”, explica.

Dinheiro, emoção e comportamento

A relação entre apostas e finanças vai além dos números. Segundo a especialista, o dinheiro carrega significados emocionais e históricos distintos para cada pessoa, o que explica por que indivíduos com a mesma renda podem apresentar comportamentos financeiros completamente opostos.

“Há quem aposte na esperança de pagar dívidas, quem busque adrenalina e quem utilize o jogo como fuga emocional. O comportamento de apostar é multifatorial e profundamente individual, influenciado por fatores psicológicos, sociais, emocionais e econômicos”, destaca Juliana.

Entre os principais sinais de alerta para o vício em apostas estão a preocupação constante com jogos, a perda de controle sobre o tempo e o dinheiro gastos, a tentativa de recuperar prejuízos com novas apostas, o endividamento crescente, a negligência de responsabilidades e a ocultação do comportamento por vergonha ou culpa.

O ciclo costuma se repetir: antes de apostar, surgem ansiedade e desejo intenso; durante o jogo, a sensação de “quase vitória” reforça a ilusão de controle; após a perda, aparecem culpa e o impulso de recuperar o dinheiro, mantendo a dependência.

Impactos e caminhos para o enfrentamento

Os prejuízos se estendem para diversas áreas da vida, afetando relações familiares, desempenho profissional e estabilidade emocional. O enfrentamento passa por acompanhamento psicológico, participação em grupos de apoio e medidas práticas, como o afastamento das plataformas, desinstalação de aplicativos e cadastro em sistemas oficiais que permitem o bloqueio do CPF em sites de apostas.

A conscientização também é apontada como ferramenta essencial para reduzir danos e interromper o ciclo do vício.

Educação financeira desde cedo como prevenção

Com 80,4 milhões de brasileiros endividados, segundo dados do Serasa, especialistas defendem que a prevenção deve começar ainda na infância. A proposta é preparar crianças e adolescentes para lidar com dinheiro de forma consciente, reduzindo a vulnerabilidade a golpes e apostas no futuro.

Nesse contexto, a startup Investeendo aposta na educação financeira por meio da gamificação. A metodologia utiliza jogos físicos e aplicativos instalados em totens e tablets que simulam caixas eletrônicos, ensinando conceitos como poupança, investimentos e planejamento financeiro.

“É fundamental que crianças e jovens aprendam desde cedo a gerenciar suas finanças e a evitar armadilhas financeiras. A gamificação torna um tema complexo mais acessível e interessante para essa faixa etária”, afirma Sam Adam Hoffmann, cofundador e CEO da Investeendo.

A startup já desenvolveu projetos em mais de 40 instituições de ensino, em três estados brasileiros, com atuação direta em comunidades em situação de vulnerabilidade social. Segundo Sam, os resultados são expressivos. “Estudantes que antes viam jogos de apostas como investimento passam a discutir renda fixa, renda variável, liquidez, impostos e planejamento financeiro”, ressalta.

Para Juliana, no entanto, a educação financeira deve integrar um conjunto mais amplo de ações. “Ela melhora a compreensão de risco e gestão do dinheiro, mas não elimina sozinha o problema. O modelo mais eficaz é integrado, envolvendo famílias, comunidades, desenvolvimento de competências socioemocionais e políticas públicas estruturadas”, conclui.

Diante de um cenário de expansão dos jogos on-line, especialistas reforçam que informação, prevenção e educação financeira são caminhos decisivos para reduzir o impacto do vício em apostas e proteger as próximas gerações.

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