Redação Plenax – Flavia Andrade
A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, anunciada neste sábado (3) pelo presidente Donald Trump, encerra — ao menos simbolicamente — um dos ciclos mais longos e controversos da política latino-americana recente. Ex-motorista de ônibus, líder sindical e escolhido pessoalmente por Hugo Chávez como sucessor, Maduro governou a Venezuela por 12 anos em meio a crises econômicas profundas, denúncias de autoritarismo e isolamento internacional crescente.
No poder desde 2013, Maduro cumpria seu terceiro mandato, conquistado em eleições amplamente contestadas por observadores internacionais. Agora, passa a figurar no centro do maior confronto direto entre Venezuela e Estados Unidos em décadas.
Das ruas de Caracas ao chavismo
Nicolás Maduro Moros nasceu em Caracas e hoje tem 62 anos. Após concluir o ensino médio, trabalhou como motorista de ônibus no sistema do Metrô da capital venezuelana. Foi nesse ambiente que iniciou sua militância política, fundando um sindicato para representar os trabalhadores do transporte público no fim da década de 1970.
A projeção nacional veio com sua aproximação do Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), liderado por Hugo Chávez. Em 1992, após a tentativa frustrada de golpe de Estado e a prisão de Chávez, Maduro ganhou notoriedade como um dos principais articuladores da campanha por sua libertação.
Ascensão política e confiança de Chávez
Com a chegada de Chávez ao poder, em 1999, Maduro ingressou formalmente na política institucional. Foi membro da Assembleia Nacional Constituinte, deputado e chegou à presidência da Assembleia Nacional em 2006.
Pouco depois, deixou o Legislativo para assumir o Ministério das Relações Exteriores, cargo no qual permaneceu por anos e se consolidou como um dos aliados mais leais de Chávez. Em 2012, foi escolhido como vice-presidente.
Pouco antes de morrer, Chávez deixou um recado claro ao país, em cadeia nacional: “Se algo acontecer comigo, elejam Nicolás Maduro”. A declaração selou a sucessão dentro do chavismo.
Chegada ao poder e instabilidade
Com a morte de Chávez, em março de 2013, Maduro venceu as eleições presidenciais por margem apertada contra Henrique Capriles. A partir daí, enfrentou uma sequência de crises políticas e econômicas.
Em 2014, grandes protestos tomaram as ruas da Venezuela. Lideranças opositoras, como Leopoldo López e Antonio Ledezma, foram presas, acusadas de conspiração e incitação à violência. O episódio marcou o início de um período de forte repressão, que passou a atrair sanções internacionais, especialmente dos Estados Unidos.
Colapso econômico e êxodo em massa
O governo Maduro coincidiu com o colapso da economia venezuelana. A queda nos preços do petróleo — principal fonte de receita do país — expôs a dependência do setor e agravou desequilíbrios fiscais.
Para conter a crise, o governo ampliou a emissão de moeda, o que levou a uma hiperinflação histórica. Em 2019, estimativas apontavam inflação anual na casa dos milhões por cento. A pobreza disparou, serviços básicos entraram em colapso e o país enfrentou apagões, falta de água e escassez de alimentos.
O resultado foi um êxodo sem precedentes. Segundo a ONU, mais de 6 milhões de venezuelanos deixaram o país até 2023, muitos deles cruzando a fronteira com o Brasil.
Acusações de autoritarismo
Ao longo do governo, Maduro foi acusado de concentrar poder, perseguir opositores e enfraquecer instituições democráticas. Em 2017, convocou uma Assembleia Constituinte dominada por aliados, que passou a exercer poderes acima do Parlamento, então controlado pela oposição.
Organizações de direitos humanos denunciaram prisões arbitrárias e repressão violenta a protestos. Apenas em 2019, segundo o Observatório Venezuelano de Conflito Social, ao menos 67 pessoas morreram em ações relacionadas a manifestações contra o governo.
Essequibo e tensão regional
No fim de 2023, Maduro reacendeu uma disputa histórica ao propor a anexação da região de Essequibo, território reivindicado pela Guiana e rico em petróleo. A medida elevou a tensão na América do Sul e gerou alertas internacionais sobre risco de conflito armado.
Mesmo após acordos diplomáticos, o governo venezuelano promulgou uma lei criando a província da “Guiana Essequiba”, aprofundando o impasse com o país vizinho.
Terceiro mandato contestado
A eleição que garantiu o terceiro mandato de Maduro foi marcada por denúncias de irregularidades. Candidatos opositores foram impedidos de concorrer, observadores internacionais foram barrados e sanções suspensas temporariamente pelos EUA voltaram a ser discutidas.
Mesmo politicamente isolado, Maduro conseguiu se manter no poder, sustentado pelo aparato estatal, pelas Forças Armadas e pelo núcleo duro do chavismo.
Alvo dos EUA e queda abrupta
Nos últimos meses, o presidente Donald Trump intensificou a pressão sobre Caracas. Maduro passou a ser tratado por Washington como líder do chamado Cartel de los Soles, classificado pelos EUA como organização terrorista ligada ao narcotráfico. Uma recompensa de US$ 50 milhões foi oferecida por informações que levassem à sua prisão.
Neste sábado, Trump anunciou que forças americanas capturaram Maduro e o retiraram da Venezuela por via aérea, sem divulgar o destino. O governo venezuelano afirma não saber onde o presidente está e exige prova de vida.
A trajetória de Nicolás Maduro — do volante de um ônibus ao centro de um conflito geopolítico internacional — reflete não apenas a história recente da Venezuela, mas também os limites e contradições do chavismo no poder. O desfecho definitivo, no entanto, ainda está em aberto.

