Redação Plenax – Flavia Andrade
Abordagem precoce melhora a qualidade de vida, reduz sintomas e pode aumentar o tempo de sobrevivência, apontam estudos internacionais
Os cuidados paliativos, quando iniciados logo após o diagnóstico de uma doença grave, podem aumentar a sobrevida e melhorar de forma significativa a qualidade de vida de pacientes oncológicos. A constatação é respaldada por estudos científicos recentes e reforçada por especialistas da área, que defendem a prática como parte integrada do tratamento, e não apenas como medida de fim de vida.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os cuidados paliativos são uma abordagem multidisciplinar voltada à promoção da qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida. A estratégia busca prevenir e aliviar o sofrimento em todas as suas dimensões — físicas, psicológicas, sociais e espirituais — por meio da identificação precoce e do manejo adequado dos sintomas.
Segundo a médica intensivista e especialista em Cuidados Paliativos da Oncologia D’Or, Isabela Schiffino, a prática ainda é cercada por equívocos. “O paciente com efetivo controle dos sintomas físicos, emocionais, psicológicos, sociais e espirituais vive mais. Cuidado paliativo não é falar sobre morte. É falar sobre a vida, sobre o que ainda faz sentido, o que conecta e dignifica cada dia vivido”, afirma.
Apesar de sua relevância, a Medicina Paliativa ainda é pouco conhecida pela população. A área foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina há cerca de 15 anos e só passou a integrar oficialmente a grade curricular dos cursos de Medicina em 2022, com o objetivo de formar profissionais capacitados para atuar em equipes multidisciplinares, fundamentadas nos princípios da bioética.
Evidências científicas reforçam os benefícios
O avanço da Medicina Paliativa tem sido acompanhado por pesquisas robustas. Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) analisou 144 pacientes com câncer avançado que não estavam em fase terminal nem eram candidatos à quimioterapia. Os resultados indicaram que aqueles que receberam pelo menos dez intervenções de cuidados paliativos apresentaram sobrevida superior a dois anos em relação aos pacientes que não tiveram acesso à abordagem.
Outro levantamento, realizado nos Estados Unidos, avaliou 151 pacientes com câncer metastático de pulmão de não pequenas células. Entre os que receberam cuidados paliativos, apenas 16% desenvolveram depressão, contra 38% no grupo que seguiu apenas o tratamento convencional. A qualidade de vida também foi superior, com pontuação média de 98 na Escala de Avaliação Funcional da Terapia do Câncer de Pulmão, ante 91 pontos no grupo controle, além de maior sobrevida.
Para Isabela Schiffino, os cuidados paliativos funcionam como um suporte essencial ao longo do tratamento. “É como um guarda-chuva em meio à tempestade provocada pela doença, pelo tratamento e pelas incertezas do futuro”, compara. A atuação envolve uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, assistentes sociais, farmacêuticos, terapeutas ocupacionais e capelães.
Impacto direto no tratamento oncológico
O câncer é uma das principais causas de morte no Brasil, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Somente em 2024, o país registrou 266.692 óbitos em decorrência da doença. Diante desse cenário, não é por acaso que a Medicina Paliativa tem ampla aplicação na oncologia.
“A introdução precoce dos cuidados paliativos impacta diretamente a qualidade do tratamento oncológico. Ela reduz, por exemplo, a sobrecarga de demandas emergenciais ao especialista, especialmente no controle de sintomas físicos, emocionais e sociais”, explica a médica.
Isabela relata que, em alguns casos, pacientes associam a chegada da equipe paliativista à desistência do tratamento curativo. “Com uma comunicação técnica, empática e cuidadosa, esclarecemos que seguimos apoiando e torcendo pela recuperação. E, caso ela não aconteça, garantimos que o paciente e a família estarão acolhidos e assistidos em qualquer cenário”, pontua.
Um estudo realizado na Bélgica com 186 pacientes com câncer avançado e expectativa de vida estimada em um ano reforça essa percepção. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu cuidados paliativos precoces e sistemáticos, enquanto o outro seguiu apenas o tratamento oncológico padrão. Após 12 semanas, a avaliação de qualidade de vida, com base no questionário da Organização Europeia para a Pesquisa e Tratamento do Câncer (EORTC), mostrou vantagem clara para o primeiro grupo, que alcançou 61,98 pontos, contra 54,39 do segundo.
Os dados reforçam que os cuidados paliativos, longe de significarem desistência, representam uma estratégia fundamental para ampliar o bem-estar, preservar a dignidade e, em muitos casos, prolongar a vida de pacientes oncológicos.

