Redação Plenax
Profissionais de saúde mental observam jovens que chegam com rótulos psiquiátricos definidos após pesquisas digitais e destacam riscos da simplificação do sofrimento psíquico
Consultórios voltados ao público adolescente têm registrado uma mudança no perfil das demandas. Cada vez mais, jovens procuram atendimento afirmando apresentar quadros como transtorno bipolar, TDAH ou transtorno de personalidade borderline — conclusões frequentemente baseadas em conteúdos consumidos em redes sociais ou em respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial.
O fenômeno acompanha a expansão do acesso à informação e a popularização de plataformas digitais que oferecem descrições rápidas de sintomas, listas de características e vídeos curtos associando comportamentos cotidianos a categorias diagnósticas. A lógica algorítmica, que reforça conteúdos semelhantes após cada busca, contribui para consolidar interpretações iniciais.
“O jovem chega com uma conclusão pronta”
Para a psicóloga Maria Klien, o cenário exige análise cuidadosa. Segundo ela, há um deslocamento na dinâmica da escuta clínica.
“O jovem chega com uma conclusão pronta, construída a partir de fragmentos de informação. Ele não apresenta apenas sofrimento, mas uma identidade organizada em torno de um rótulo. Isso altera o ponto de partida do trabalho clínico, porque o foco deixa de ser a experiência vivida e passa a ser a confirmação ou negação de um diagnóstico previamente assumido.”
A especialista ressalta que a adolescência é marcada por instabilidade emocional, conflitos de pertencimento e busca por reconhecimento. Quando essas vivências passam a ser traduzidas automaticamente em categorias psiquiátricas, há risco de empobrecimento da compreensão sobre o que está sendo sentido.
Velocidade e reforço algorítmico ampliam o impacto
O autodiagnóstico não é um fenômeno novo. Em décadas anteriores, jovens recorriam a livros, revistas e testes publicados em periódicos. A diferença atual está na velocidade de circulação das informações e na capacidade das plataformas digitais de reforçar conteúdos semelhantes a partir de pesquisas anteriores.
Além disso, comunidades virtuais organizadas em torno de determinadas condições de saúde mental compartilham relatos pessoais e listas de sinais que, isoladamente, podem ser comuns a diferentes fases do desenvolvimento.
Diagnóstico não é identidade
Segundo Maria Klien, o principal risco está na cristalização precoce de um rótulo.
“O diagnóstico em saúde mental não é um rótulo identitário. É uma ferramenta clínica que orienta condutas e estratégias terapêuticas. Fora desse contexto, pode funcionar como cristalização de conflitos que ainda estão em transformação. É necessário distinguir sofrimento psíquico, que faz parte do desenvolvimento, de quadros estruturados que demandam intervenção específica.”
Ela também enfatiza que sistemas de inteligência artificial produzem respostas baseadas em padrões estatísticos, mas não substituem avaliação técnica.
“A internet oferece dados, mas não realiza escuta. A inteligência artificial produz respostas baseadas em padrões, porém não considera história familiar, contexto social, trajetória escolar e funcionamento emocional. Sem esse conjunto, qualquer conclusão é parcial.”
Impacto nas famílias
Outro aspecto observado em consultório é a influência do ambiente digital sobre responsáveis, que muitas vezes chegam às consultas já convencidos de determinado diagnóstico, influenciados por relatos virtuais.
Para a psicóloga, isso pode intensificar tensões e dificultar a compreensão do processo em curso. Oscilações de humor, impulsividade e questionamentos fazem parte da transição da adolescência para a vida adulta. Quando cada manifestação é enquadrada como sintoma de um transtorno, corre-se o risco de desconsiderar o processo natural de amadurecimento.
A avaliação em saúde mental, reforça a especialista, exige tempo, investigação criteriosa e acompanhamento contínuo. Diagnóstico não é resposta imediata a qualquer angústia, mas resultado de análise técnica construída de forma responsável.

