Posted in

Agricultura regenerativa ganha escala na Fazenda Paiaguás (MT) com piloto da RTRS

Foto: Divulgação

Redação Plenax

Projeto transforma práticas agrícolas já consolidadas em indicadores mensuráveis e aproxima produtividade da agenda de clima, solo e biodiversidade

A Round Table on Responsible Soy (RTRS) avança no desenvolvimento de seu projeto-piloto de agricultura regenerativa no Brasil tendo como uma das principais referências a Fazenda Paiaguás, pertencente à SLC Agrícola. A iniciativa busca analisar como produtores de soja estão adotando práticas regenerativas no campo e reunir experiências que ajudem a aperfeiçoar o protocolo em fase de testes da entidade.

Parte do portfólio da SLC Agrícola desde agosto de 2000, a Fazenda Paiaguás passou por um processo contínuo de expansão e modernização ao longo das últimas décadas. Atualmente, a propriedade conta com 28.038 hectares de área própria e mais de 63 mil hectares cultivados, com sistema de rotação entre soja, milho e algodão. A estrutura inclui ainda infraestrutura completa para a produção e iniciativas sociais voltadas às comunidades do entorno. Em 2025, a unidade registrou 31.589 hectares e mais de 120 mil toneladas de soja certificada pela RTRS.

Pelo desempenho produtivo aliado à adoção de tecnologias e boas práticas agrícolas, a fazenda é considerada estratégica dentro das operações da companhia.

Segundo o gerente de Sustentabilidade da SLC Agrícola, Tiago Agne, a principal contribuição da unidade para o projeto está na possibilidade de testar, em escala comercial, os indicadores que compõem o protocolo regenerativo da RTRS.

“A Fazenda Paiaguás oferece evidências concretas da aplicação dessas práticas em larga escala, dentro de um sistema produtivo complexo que inclui a rotação com algodão. Isso possibilita gerar dados consistentes para calibrar indicadores e estabelecer referências mais realistas para diferentes regiões e modelos produtivos”, afirma.

Agne destaca ainda que o fato de todas as propriedades participantes do piloto trabalharem com algodão amplia o valor técnico da iniciativa. “Conseguimos separar com clareza o que é prática, o que é métrica e o que representa resultado dentro do processo de avaliação. Isso fortalece a consistência do protocolo e sua aplicabilidade no campo”, acrescenta.

A participação no piloto também trouxe reflexos para a gestão interna da fazenda. De acordo com o executivo, o diagnóstico padronizado da RTRS ajuda a organizar evidências e direcionar prioridades. “O projeto estrutura a avaliação das práticas regenerativas e reforça a lógica de melhoria contínua na gestão agrícola. Ao analisar indicadores ligados a solo, clima, biodiversidade e água, conseguimos transformar um conjunto amplo de práticas em planos de ação mais objetivos e focados em impacto”, explica.

Práticas regenerativas já fazem parte da rotina

Na operação da fazenda, diversas práticas associadas à agricultura regenerativa já estão incorporadas ao manejo. O plantio direto — sem revolvimento mecânico do solo — é utilizado em praticamente 100% das áreas cultivadas pela empresa.

A rotação entre soja, milho e algodão também contribui para reduzir a pressão de pragas e doenças, além de favorecer a ciclagem de nutrientes no sistema produtivo.

Outro elemento importante é a manutenção da palhada em grande parte das áreas, prática que ajuda a conservar a umidade do solo e aumenta a capacidade de adaptação das lavouras a períodos de estresse hídrico. Paralelamente, inoculantes são utilizados em todas as fazendas do grupo, enquanto os bioinsumos já representam cerca de 16,7% dos defensivos aplicados.

Para o gerente da Fazenda Paiaguás, Rafael Bellé, o principal resultado dessas estratégias está na maior estabilidade produtiva ao longo das safras.

“Quando combinamos plantio direto, rotação de culturas e cobertura permanente do solo, reduzimos a variabilidade entre safras. Isso aumenta a previsibilidade do negócio e diminui a exposição a riscos climáticos”, afirma.

Ele ressalta que o acompanhamento de indicadores do solo, aliado a uma gestão baseada em dados, permite correlacionar práticas agrícolas com desempenho agronômico e orientar decisões mais precisas ao longo do tempo.

Protocolo incorpora realidade produtiva e variáveis de mercado

Para a RTRS, a experiência da Fazenda Paiaguás tem sido fundamental para ampliar o entendimento sobre o funcionamento dos sistemas produtivos de soja dentro do piloto de agricultura regenerativa.

De acordo com Ana Laura Andreani, gerente global de Padrões e Assurance da RTRS, a operação evidenciou como a integração com o algodão influencia diretamente os resultados agronômicos, oferecendo uma visão mais concreta dos desafios e oportunidades de sistemas agrícolas diversificados.

Já Helen Estima Lazzari, consultora externa da RTRS e coordenadora do projeto-piloto, ressalta que a fazenda também demonstrou como fatores de mercado interferem nas decisões de manejo e planejamento.

“Isso mostra que a avaliação da agricultura regenerativa não pode ser separada das condições econômicas e comerciais que orientam o produtor. Essas variáveis precisam ser consideradas na construção e aplicação dos indicadores”, explica.

Segundo as representantes da entidade, ao compartilhar dados operacionais e experiências de campo, a fazenda contribui para tornar o protocolo mais alinhado à realidade do setor, reforçando que a agricultura regenerativa deve ser analisada tanto sob a perspectiva técnica quanto dentro do contexto econômico que orienta as decisões do produtor.

Certificação abriu caminho para agenda regenerativa

A SLC Agrícola tornou-se membro da RTRS em 2007 e certificou suas primeiras unidades em 2011, posicionando-se entre as pioneiras da América Latina nesse sistema de certificação. A Fazenda Paiaguás passou a integrar o programa em 2015 e mantém, desde então, a certificação de soja responsável.

Para Tiago Agne, esse histórico criou a base necessária para avançar na agenda regenerativa. “A RTRS ajudou a estruturar processos, fortalecer a rastreabilidade e consolidar disciplina operacional. Esse conjunto é essencial para comprovar a adoção de práticas regenerativas e acompanhar sua evolução ao longo do tempo”, afirma.

Na avaliação de Rafael Bellé, o projeto-piloto amplia o foco da certificação tradicional, que deixa de tratar apenas de conformidade e passa a considerar resultados concretos em solo, clima, água e biodiversidade.

“Ao transformar práticas consolidadas em indicadores mensuráveis, o piloto da RTRS aponta para um novo estágio da produção responsável de soja no Brasil: sair da conformidade socioambiental e avançar para a geração comprovada de impactos positivos em larga escala”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)