Redação Plenax – Flavia Andrade
Produção estadual deve ficar abaixo de 20% das 350 mil toneladas inicialmente previstas; setor também demonstra preocupação com a qualidade do cereal e defende maior integração entre produtores e indústria moageira
As fortes chuvas registradas em setembro devem provocar perdas superiores a 80% na safra de trigo de São Paulo. A produção estadual, inicialmente estimada em 350 mil toneladas, pode ficar abaixo de 70 mil toneladas, enquanto apenas 10% a 15% do volume colhido deve alcançar a classificação Tipo 1. O cenário amplia os desafios para a cadeia produtiva e preocupa representantes do setor, que também projetam dificuldades econômicas nos próximos anos.
Os impactos climáticos, as perspectivas para o mercado e as estratégias para fortalecer a triticultura paulista foram discutidos na quinta-feira (29), durante a terceira e última reunião do ano da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo. O encontro ocorreu na Cooperativa Castrolanda, no Entreposto Itaberá (SP), em formato híbrido.
Durante a reunião, o Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo) reforçou a importância de aproximar produtores rurais e indústria moageira para fortalecer a cadeia produtiva e preservar o mercado para o cereal cultivado no estado.
O presidente da Câmara Setorial, Ruy Zanardi, afirmou que o cenário se agravou em relação às previsões apresentadas no encontro anterior. Na ocasião, já havia expectativa de redução da produção, mas as estimativas sobre a qualidade do trigo ainda eram consideradas positivas. Agora, além da quebra na colheita, a qualidade do cereal também preocupa.
“A previsão de que a safra não seria boa, feita na última reunião da Câmara, se confirmou. Mas, pelos relatos que ouvimos aqui, a situação se agravou e foi pior do que o esperado. A expectativa era colher cerca de 350 mil toneladas, mas não chegaremos nem a 20% desse volume”, detalhou.
Segundo Zanardi, as perdas estão relacionadas às condições climáticas registradas a partir do início de setembro, quando as chuvas se intensificaram em todo o estado. Em alguns municípios, o volume de precipitação chegou a 629 milímetros no mês, equivalente a 629 litros de água por metro quadrado.
A continuidade das chuvas também mantém o risco de novos prejuízos nas áreas que ainda não foram colhidas.
Apesar das dificuldades, o presidente da Câmara Setorial ressaltou que a indústria moageira continua aberta à compra do trigo paulista. Ele também mencionou a informação apresentada durante a reunião sobre a edição de uma medida provisória para auxiliar os produtores afetados pelas perdas da safra.
Para Zanardi, a continuidade da produção dependerá da capacidade de superar os obstáculos e manter a articulação entre os diferentes elos da cadeia.
O presidente do Sindustrigo, Max Piermartiri, também chamou a atenção para os desafios econômicos que devem acompanhar a recuperação da atividade.
“O caminho daqui para frente será difícil. Ainda enfrentaremos desafios nesta safra de 2026/2027, em um cenário econômico que pode continuar complicado em 2027 e até 2028. Precisamos fortalecer a aproximação entre a produção agrícola e a indústria moageira”, afirmou.
Anfitrião do encontro e vice-presidente da Câmara Setorial, José Reinaldo avaliou que as perdas representam um desafio excepcional para os produtores, mas defendeu a continuidade dos esforços para recuperar a triticultura paulista.
“Essa foi uma safra bem diferente das demais, com grandes desafios pela frente, mas seguimos firmes com nossos propósitos e confiantes na capacidade de recuperação da triticultura do estado de São Paulo”, afirmou. Ele acrescentou que a expectativa é de resultados melhores nas próximas safras.
Pesquisa aponta avanço na avaliação do trigo paulista
Durante a reunião, Zanardi também apresentou os resultados de uma pesquisa sobre o trigo paulista na safra 2025/2026. O levantamento apontou crescimento de 45,3% nas compras do cereal pelos associados do Sindustrigo, que passaram de 403.566 toneladas para 586.330 toneladas no período.
A satisfação geral dos associados com a utilização do trigo produzido no estado também aumentou. A nota média passou de 7,9, em 2025, para 8,9, em 2026.
Entre os atributos avaliados, a percepção sobre a cor avançou de 6,6 para 7,9. A homogeneidade passou de 6,5 para 7,3, enquanto a avaliação da sanidade subiu de 8,0 para 8,6.
As principais aplicações do trigo paulista no último ano-safra foram a fabricação de pães, responsável por 48,9% do volume, o uso doméstico, com 33,8%, e a produção de massas, com 11,5%. Também foram mencionados os pães industriais (7,6%), os biscoitos (5,5%) e os pães congelados (2,9%).
“Na comparação entre os anos, é importante destacar que há uma evolução consistente na percepção de qualidade do trigo paulista. Houve melhora na avaliação dos quesitos, especialmente cor, homogeneidade e sanidade. Ainda há espaço para melhorias, porém a mudança positiva tem sido consistente”, explicou Zanardi.
Na comparação com o trigo argentino, o cereal paulista apresentou melhor percepção de qualidade em todos os atributos avaliados, com exceção da homogeneidade. De acordo com Zanardi, o resultado reflete tanto a evolução da avaliação do produto local quanto a piora na percepção sobre o trigo argentino.
Ao comentar os dados, o presidente da Câmara Setorial também destacou a importância do trabalho conjunto para o desenvolvimento da cadeia produtiva e parabenizou os produtores da região.
Mercado internacional influencia perspectivas para o abastecimento brasileiro
A conjuntura nacional e internacional do trigo foi apresentada por Fabio Cruz, da StoneX. Segundo os dados expostos durante a reunião, a produção mundial está estimada em 882 milhões de toneladas, enquanto o consumo deve alcançar 824 milhões de toneladas.
No cenário externo, as perspectivas para Rússia e Ucrânia e o ritmo das exportações norte-americanas estão entre os principais fatores de atenção. A expectativa de recuperação dos embarques russos e ucranianos influencia as cotações, enquanto o desempenho mais lento das exportações dos Estados Unidos exerce pressão sobre os preços.
Para a Argentina, a projeção apresentada é de que as exportações não alcancem 19 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume deverá contribuir para complementar a oferta mundial.
Apesar das chuvas, a safra argentina apresentava boas condições até o momento da análise. O resultado da produção do país será importante para o equilíbrio do mercado global, considerando também os desdobramentos da situação no Mar Negro.
No Brasil, a avaliação é de crescimento tanto das importações quanto das exportações. As variações cambiais elevaram os patamares de referência para as duas operações, reforçando a necessidade de acompanhar o mercado internacional para planejar o abastecimento.
Câmaras setoriais devem ampliar planejamento e participação do setor produtivo
Outro assunto discutido foi a proposta de funcionamento das câmaras setoriais, apresentada pelo coordenador das Câmaras Setoriais e Temáticas, Felipe Camargo.
Ele abordou o diagnóstico do modelo atual e as mudanças previstas para institucionalizar a agenda de trabalho. A iniciativa busca ampliar o planejamento, estabelecer metas, mensurar resultados e fortalecer a participação dos setores produtivos na definição das prioridades da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
A proposta prevê a elaboração conjunta das pautas anuais, alinhando as demandas das cadeias produtivas à agenda da secretaria. A intenção é estruturar ações com objetivos definidos, acompanhar sua execução e dar transparência aos resultados alcançados.
“A mensagem que trazemos é de resiliência: o momento não é fácil, mas, quando temos um propósito, e o triticultor paulista tem essa característica, acredito que vamos fazer com que se organize a cadeia e que ela seja cada vez mais resiliente. Esse é o papel da Câmara, construir um planejamento que seja adequado ao desenvolvimento da cadeia”, afirmou.

