Redação Plenax – Flavia Andrade
Programa Envolva-se ensina técnicas de upcycling em Campo Grande, incentiva o consumo consciente e ajuda participantes a desenvolver habilidades para gerar renda
Retalhos coloridos, peças de jeans, fitas e máquinas de costura dão forma a novas criações e também a novas oportunidades no Sesc Mais, no bairro Coophavila, em Campo Grande. No espaço, roupas que poderiam ser descartadas ganham outras utilidades por meio do upcycling, técnica que transforma materiais usados em produtos com novo valor. A atividade integra o programa Envolva-se, iniciativa de valorização social do Sesc MS que une sustentabilidade, aprendizado e possibilidade de geração de renda.
As oficinas reúnem 40 alunas e um aluno com deficiência, com idades entre 18 e mais de 60 anos. Durante as atividades, os participantes aprendem a transformar calças jeans, camisas, camisetas e outros tecidos em bolsas, coletes, acessórios e artigos de decoração. As mesas utilizadas nas aulas são improvisadas com caixas de supermercado do Sesc Mesa Brasil.
Entre as participantes está a artesã Marilza Zacarias Sabino, que chegou ao projeto em busca de uma atividade após ficar sem trabalho. Desde 2025, ela participa das formações e já comercializa suas criações em feiras, complementando a renda. Depois de se dedicar principalmente à produção de bolsas, agora comemora o aprendizado de uma nova técnica: a confecção de coletes.
“Já é a terceira etapa de que participo e estou amando muito. Esse projeto me ajuda a desenvolver mais a criatividade. Consigo vender minhas peças na feira, sempre estou fazendo um modelo novo. Agora estou fazendo os coletes, que estou amando. Achei que não ia dar conta de fazer roupa e agora estou conseguindo”, conta.
Costura como caminho para a geração de renda
A experiência de Marilza reflete a proposta da instrutora Ivani Grance, que combina mais de 30 anos de experiência como costureira com formação em Ciências Sociais e mestrado em Antropologia Social. Nas oficinas, ela trabalha a relação entre sustentabilidade, moda, empregabilidade e geração de renda.
O processo começa com a desmontagem e o recorte de peças usadas, que são reconstruídas em novos produtos. Mais do que reaproveitar materiais, a proposta é prolongar sua vida útil e agregar criatividade, acabamento e informação de moda às criações.
Para Ivani, a costura pode abrir caminhos profissionais para pessoas que enfrentam dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho.
“Eu vejo a costura como uma ferramenta de transformação social. Aquela mulher que muitas vezes não tem mais espaço no mercado de trabalho, por idade, por problema de saúde ou qualquer outra questão que a tira do mercado formal, tem a costura como possibilidade de gerar renda e de ser incluída novamente no mundo do trabalho, com a flexibilidade que às vezes é necessária”, explica.
A instrutora também destaca que as oficinas não se limitam à aprendizagem de uma atividade manual. O objetivo é desenvolver produtos com identidade e qualidade, capazes de conquistar consumidores interessados em produção artesanal e consumo consciente.
“Isso aqui não é só terapêutico. As pessoas costumam dizer que costura é terapia. Não, não é terapia. Isso aqui é dinheiro. A partir do momento que você pega um material que seria descartado e transforma em algo com valor, com informação de moda, você está produzindo objetos de desejo”, afirma.
Upcycling como alternativa para a moda
O interesse pela técnica também levou Aline Macario, de 36 anos, a participar do Envolva-se. Consultora empresarial e profissional de visual merchandising, ela conheceu o programa por meio de coletivos ligados à moda e ao reaproveitamento de materiais.
Diferentemente de Marilza, Aline ainda não comercializa suas produções. Seu objetivo é aprofundar os conhecimentos e, futuramente, compartilhar as técnicas aprendidas. Durante o curso, já confeccionou saias e camisas e pretende experimentar a produção de bolsas e acessórios.
Para ela, o reaproveitamento de tecidos é uma resposta à quantidade de materiais que ainda poderiam ser utilizados, mas acabam descartados.
“Eu acredito que o upcycling é uma solução para a moda, para o futuro. Na verdade, para o agora, não é nem para o futuro. A gente tem um descarte muito grande de materiais, de tecidos que são bons e que poderiam ter mais uma vida útil”, observa.
Aline pretende continuar estudando para ampliar sua produção e, posteriormente, transmitir o conhecimento a outras pessoas, multiplicando os benefícios econômicos e ambientais da iniciativa.
Programa receberá novas turmas em janeiro
Para manter as oficinas, o Envolva-se também depende de doações de roupas e tecidos. Os materiais devem estar em bom estado e higienizados para que possam ser utilizados na confecção de novas peças.
O programa abrirá novas vagas em janeiro, com turmas para iniciantes e participantes de nível avançado. As informações sobre inscrições e critérios de participação serão divulgadas no site e nas redes sociais do Sesc MS.
O Sistema Comércio MS é composto por Fecomércio MS, Sesc MS, Senac MS, IPF e sindicatos empresariais. A entidade é presidida por Juliano Wertheimer e administrada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), presidida por José Roberto Tadros.

