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Nobel de Química destaca pesquisas que ajudam a explicar a assimetria das moléculas da vida

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Trabalhos de Henri Kagan e Kenso Soai mostram como pequenas diferenças entre moléculas espelhadas podem ser amplificadas e ajudam a compreender um dos fenômenos fundamentais da química da vida

Os pesquisadores Henri B. Kagan, da França, e Kenso Soai, do Japão, receberam o Prêmio Nobel de Química de 2026 pela descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise em síntese orgânica assimétrica. Os dois pesquisadores dividirão o prêmio de 12 milhões de coroas suecas, equivalente a aproximadamente R$ 6,3 milhões.

A pesquisa ajuda a compreender um fenômeno conhecido como homoquiralidade, observado quando um sistema químico ou biológico utiliza predominantemente uma das duas formas espelhadas de determinada molécula.

Algumas substâncias, como os aminoácidos, podem existir em duas versões que são imagens especulares uma da outra. O fenômeno pode ser comparado às mãos direita e esquerda: embora sejam espelhadas, não é possível sobrepô-las perfeitamente.

“Para explicar esse fenômeno, eu gosto de usar o exemplo das mãos. A mão direita e a esquerda são imagens especulares, mas não conseguimos sobrepô-las perfeitamente. Algumas moléculas também são assim. Elas possuem imagens especulares chamadas enantiômeros”, explica Humberto Milagre, docente do Instituto de Química da Unesp, em Araraquara.

Por que a assimetria das moléculas importa?

O fenômeno ganha importância porque as proteínas presentes nas células utilizam apenas uma das formas de determinadas moléculas, enquanto a versão espelhada é raramente encontrada na natureza.

Durante décadas, os cientistas conheciam essa preferência, mas ainda buscavam compreender como ela poderia surgir e, principalmente, como reproduzi-la e controlá-la em laboratório.

Em reações químicas capazes de produzir moléculas espelhadas, era comum obter quantidades semelhantes das duas versões. O desafio da química orgânica passou, então, a ser desenvolver métodos que permitissem produzir predominantemente uma delas.

A questão tem impacto direto na produção de substâncias que interagem com organismos vivos. No caso dos medicamentos, por exemplo, duas moléculas espelhadas podem apresentar comportamentos diferentes no organismo.

“Um enantiômero de um fármaco, por exemplo, pode apresentar o efeito terapêutico desejado, enquanto o outro pode apresentar atividade diferente ou indesejada. Por isso, produzir seletivamente a forma desejada é extremamente importante para a química farmacêutica, os agroquímicos e outras áreas”, afirma Milagre.

Pesquisas mostram como uma pequena diferença pode ser ampliada

Foi nesse contexto que Kagan e Soai desenvolveram suas pesquisas. Os trabalhos dos dois cientistas demonstraram mecanismos capazes de gerar e ampliar a predominância de uma das formas espelhadas de uma molécula.

Kagan mostrou que a relação entre a composição de um catalisador e a do produto pode apresentar um comportamento não linear, permitindo amplificar uma diferença inicialmente pequena.

Soai, por sua vez, demonstrou que esse processo também pode ser reforçado por meio de uma reação autocatalítica, na qual o próprio produto participa do processo que favorece sua formação.

As duas contribuições ajudam a explicar como uma pequena diferença inicial pode ser ampliada até resultar na predominância quase absoluta de uma das formas moleculares.

Uma pista sobre a origem da vida

Além das aplicações na produção seletiva de medicamentos, aromas, fragrâncias e outros compostos químicos, os resultados têm relação com uma das questões mais antigas da ciência: por que a vida utiliza predominantemente uma das formas possíveis de determinadas moléculas?

“Isso é, provavelmente, uma das questões mais fundamentais da vida. Porque, de alguma forma, algo parecido deve ter acontecido há quatro bilhões de anos, quando a vida surgiu na Terra. E, agora, nós mimetizamos isso em um laboratório”, afirmou Peter Somfai, membro do Comitê Nobel de Química.

Para Milagre, a questão está diretamente ligada à característica quiral da vida.

“A vida é essencialmente quiral”, destaca o químico. Os aminoácidos que formam as proteínas, por exemplo, apresentam apenas uma das duas formas possíveis.

Os trabalhos premiados, segundo o docente da Unesp, não explicam como surgiu originalmente a quiralidade da vida, mas apresentam um mecanismo químico que ajuda a entender como uma diferença inicial poderia ter sido amplificada.

“Os trabalhos premiados mostram um mecanismo químico pelo qual uma diferença inicialmente pequena pode ser amplificada até que praticamente uma única forma predomine. Isso não explica a origem da quiralidade da vida, mas fornece uma pista química importante para compreendermos como isso poderia ocorrer”, afirma Milagre.

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