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Paraná realiza transplante renal robótico inédito com órgão de doador falecido

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Procedimento realizado em Curitiba está entre os primeiros do país e amplia possibilidades do uso da tecnologia em transplantes

A dentista Jessica Gama de Oliveira, de 36 anos, foi a primeira paciente do Sul do Brasil a passar por um transplante renal realizado com cirurgia robótica. O procedimento, um dos primeiros do tipo no país com órgão de doador falecido, foi realizado no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba (PR), e durou cerca de três horas.

Jessica entrou na lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) em 21 de agosto. Apenas 48 horas depois, surgiu um rim compatível. Na madrugada seguinte, a paciente já estava no centro cirúrgico.

“Eu nem contava que seria tão rápido conseguir um rim. Ganhei na loteria”, conta.

A espera pelo transplante, no entanto, foi precedida por uma longa trajetória de tratamento. Em março de 2024, Jessica chegou ao hospital com inchaço e fortes dores de cabeça. Depois de permanecer 21 dias na UTI, recebeu o diagnóstico de lúpus, doença que havia comprometido os rins e levado à necessidade de hemodiálise.

Foram aproximadamente dois anos e meio de tratamento até que ela apresentasse condições clínicas para entrar na fila do transplante.

Cirurgia robótica exige estrutura disponível 24 horas

Segundo o urologista Aníbal Branco, especialista em cirurgia robótica e responsável pelo procedimento, o transplante foi o primeiro renal realizado com auxílio de robô no Sul do Brasil e está entre os poucos do país feitos com órgão de doador falecido.

Essa modalidade é considerada tecnicamente mais complexa do que o transplante com doador vivo. Enquanto o procedimento com doador vivo pode ser programado previamente, o transplante com órgão de doador falecido exige que a equipe esteja preparada para atuar a qualquer momento.

“É preciso ter equipe de enfermagem, cirurgia robótica, UTI e nefrologia disponíveis 24 horas por dia. Nesse caso, a cirurgia começou à meia-noite de um sábado”, explica Branco.

O procedimento durou aproximadamente 180 minutos, sendo 165 deles com utilização do sistema robótico. Para realizar a cirurgia, a equipe aproveitou uma cicatriz de cesárea já existente na paciente, evitando uma nova incisão abdominal.

Tecnologia reduz tamanho da incisão

O sistema Da Vinci X utilizado na cirurgia oferece visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados, capazes de reproduzir os movimentos do punho do cirurgião e eliminar tremores das mãos. A tecnologia permite maior precisão em áreas de difícil acesso e auxilia na realização de cortes e suturas.

“A principal diferença está no tamanho da incisão. Em vez de uma cicatriz grande, conseguimos uma abordagem muito menor e sem cortar músculos. Isso pode significar menos dor, menor risco de complicações na parede abdominal e recuperação mais rápida”, afirma o urologista.

De acordo com Branco, pacientes com insuficiência renal costumam apresentar maior fragilidade muscular devido às comorbidades associadas à doença. Nesse grupo, uma incisão menor pode reduzir o risco de complicações após a cirurgia.

O transplante também integra o histórico de utilização da tecnologia pelo hospital. Em 2026, o Hospital São Marcelino Champagnat alcançou a marca de 2 mil cirurgias robóticas realizadas com o sistema Da Vinci X.

Técnica pode ampliar possibilidades nos transplantes

Para o nefrologista Rafael Piné, integrante da equipe responsável pelo transplante, o procedimento também representa uma oportunidade de ampliar a experiência com a técnica em um cenário ainda restrito no país.

“A nossa intenção é ampliar o uso da cirurgia robótica para pacientes que possam se beneficiar especialmente dessa abordagem, como pessoas com obesidade ou que já tenham passado por múltiplas cirurgias, à medida que a técnica se torne mais acessível no Brasil”, afirma.

Branco também avalia que a tendência é de crescimento da utilização da tecnologia nos transplantes renais.

“A tendência é que façamos cada vez mais transplantes renais por cirurgia robótica. Com o tempo, a expectativa é que essa tecnologia esteja mais disponível e possa ser utilizada em um número maior de casos”, complementa.

Jessica permaneceu seis dias internada e, após receber alta, retomou gradualmente a rotina. Segundo ela, a recuperação ocorreu sem grandes dores.

“O procedimento foi muito tranquilo e a recuperação muito boa, quase sem dor nenhuma. O transplante deu outro norte à minha vida, tudo melhorou do dia para a noite. A doação de órgãos é muito importante, e sou muito grata à família que permitiu que meus sonhos seguissem em frente”, relata.

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