Posted in

Dólar despenca após 1º turno, fica abaixo de R$ 5 e acende alerta para empresas

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Valorização do real após resultado das urnas reduz custos de importadores, mas pode pressionar receitas de exportadores

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais provocou uma forte reação no mercado financeiro. Na segunda-feira (5), após Flávio Bolsonaro (PL) terminar a primeira etapa da disputa à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dólar chegou a cair mais de 4% e voltou a ser negociado abaixo de R$ 5.

A reação veio acompanhada de uma forte valorização da Bolsa brasileira. O Ibovespa avançou 7,7% no pregão e atingiu novo recorde, enquanto o real registrou a maior valorização diária em quatro anos, segundo a Reuters.

Na apuração oficial do primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Os dois disputam o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Para Murillo Oliveira, profissional do mercado financeiro e Head of Treasury da Saygo Group, o movimento representa uma reprecificação das expectativas dos investidores diante da possibilidade de mudança na condução econômica do país.

“O primeiro movimento foi uma reprecificação das expectativas. O mercado passou a considerar com mais peso a possibilidade de uma mudança de governo e, com isso, começou a fazer contas sobre política fiscal, gastos públicos, juros e composição da equipe econômica”, afirma.

Câmbio chega diretamente ao caixa das empresas

A oscilação da moeda americana vai muito além das telas do mercado financeiro. Empresas que importam ou exportam produtos, serviços e insumos podem sentir rapidamente os efeitos de uma mudança brusca na cotação.

Para os importadores, um dólar mais baixo reduz, em reais, o custo de compromissos assumidos em moeda americana. Pagamentos a fornecedores estrangeiros, aquisição de equipamentos e compra de insumos podem ficar mais baratos quando o real se valoriza.

Já para os exportadores, o efeito pode ser inverso. Como as receitas são recebidas em dólar, uma cotação menor significa menos reais pela mesma quantia recebida no exterior, o que pode pressionar as margens dependendo da estrutura de custos e dos preços praticados.

“Quem importa ou exporta não pode olhar para a eleição apenas tentando descobrir se o dólar vai subir ou cair. A pergunta mais importante é quanto da operação está exposta à moeda e qual impacto uma mudança brusca pode provocar no resultado”, explica Murillo.

Proteção cambial ganha importância

A forte movimentação registrada após o primeiro turno também reacende a discussão sobre proteção cambial. Para empresas que possuem compromissos definidos em dólar, a decisão de fechar uma operação não deveria depender exclusivamente da tentativa de encontrar a menor cotação possível.

Segundo Murillo, fatores como prazo, fluxo de caixa, margem de lucro e capacidade de absorver oscilações precisam ser considerados antes da tomada de decisão.

“Uma cotação mais baixa pode representar uma oportunidade para quem já possui uma obrigação definida, mas isso não significa que toda a exposição deva ser fechada em um único momento. A empresa precisa considerar prazo, fluxo de caixa, margem e capacidade de absorver uma eventual reversão do câmbio”, afirma.

Entre as estratégias possíveis estão o fechamento antecipado de parte das obrigações, a divisão das contratações em diferentes momentos e o uso de instrumentos de proteção cambial.

Mercado ainda acompanha segundo turno

A reação positiva dos investidores não significa que a trajetória do dólar esteja definida até o segundo turno. O mercado deve continuar acompanhando as propostas econômicas dos candidatos, especialmente questões relacionadas à política fiscal, gastos públicos, dívida e composição da equipe econômica.

A própria movimentação dos ativos nos dias seguintes mostrou que o cenário continua sujeito a ajustes. Na terça-feira (6), o dólar comercial fechou em R$ 4,975, com queda de 0,51%, enquanto o Ibovespa recuou 0,47% após a forte alta do pregão anterior.

No dia seguinte, quarta-feira (7), o dólar voltou a subir 0,33%, para R$ 4,991, em um movimento de correção influenciado também pelo ambiente externo e pelo aumento da aversão global ao risco.

Para as empresas, o cenário reforça a importância de não depender de uma previsão sobre o resultado eleitoral ou sobre a direção futura do câmbio.

“O empresário teria de acertar quem vencerá, como o mercado interpretará as primeiras decisões do novo governo e o que estará acontecendo no exterior naquele momento. São muitas variáveis. A gestão cambial existe justamente para que a margem da empresa não dependa dessa combinação”, afirma Murillo.

Além das eleições, fatores externos como juros nos Estados Unidos, força global do dólar, conflitos geopolíticos, fluxo internacional de capital e percepção de risco também podem influenciar a moeda brasileira.

“O câmbio reage antes que muitas decisões sejam efetivamente tomadas. Por isso, empresas que operam internacionalmente precisam trabalhar com proteção, planejamento e previsibilidade. Eleição pode ser um gatilho de volatilidade, mas não deveria ser o ponto de partida da estratégia financeira”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)