Por Marco Silva, Account Manager na BU de Healthcare da Hexa IT
Em 2026, o Ministério da Saúde catalogou 360 bases de dados no novo Plano de Dados Abertos, quase o dobro das 229 do ciclo anterior. Dessas, 109 já têm cronograma para abertura até 2028. Prontuários, exames, vacinas e prescrições estão tentando conversar por meio de uma rede nacional de interoperabilidade que está sendo construída enquanto você lê este texto.
A questão que merece mais seriedade é se estamos preparados para proteger, governar e usar direito tanta informação?
Sistemas passaram a conversar, a inteligência artificial chegou ao atendimento, sugerindo diagnósticos, prevendo internações e organizando agendas, enquanto a regulação tenta acompanhar.
No Brasil, essa pressão vem da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que trata dados de saúde como sensíveis, e de normas recentes do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre IA. Na Europa, o European Health Data Space tenta criar um espaço único de dados de saúde. O desafio é abrir dados para gerar valor sem deixar desprotegido quem está por trás de cada número.
No Brasil, essa construção tem nome e data, o Decreto nº 12.560, de julho de 2025, formalizou a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como espinha dorsal da interoperabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS). Ela permite que um exame feito numa unidade básica apareça no histórico do paciente quando ele chega a um pronto-socorro em outro ponto do país. A rede já conecta mais de 20 estados e o Distrito Federal. Sobre ela rodam as plataformas do SUS Digital, cujo aplicativo já soma dezenas de milhões de downloads.
Em 2026, a regulação também ganhou força, já que a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) passou a operar como autarquia com poder efetivo de fiscalização. Em fevereiro, o CFM publicou a Resolução nº 2.454/2026, sua primeira norma específica sobre IA na prática médica, exigindo proteção dos dados usados por esses sistemas.
O problema é que a conexão também amplia o risco
Infraestrutura e regulação avançam enquanto a segurança anda mais devagar. Em 2025, instituições de saúde brasileiras registraram, em média, 3.167 ataques cibernéticos por semana, cerca de 37% acima da média global do setor. Em julho de 2026, a ANPD abriu processo sancionador contra o Instituto Saúde e Cidadania (Isac) depois de um ransomware expor dados de cerca de 500 mil pacientes, incluindo 78,8 mil crianças e adolescentes. Um hospital de Foz do Iguaçu também suspendeu integrações após ataque a um fornecedor de diagnóstico por imagem.
Segundo a IBM, empresa de tecnologia, o custo médio de uma violação no setor chega a US$ 7,42 milhões, com 279 dias para identificação e contenção. No hospital, esse tempo significa prontuário fora do ar, prescrição atrasada e exame que não chega a tempo.
Interoperabilidade e proteção de dados deveriam crescer juntas. Quanto mais sistemas se conectam, maior fica a superfície exposta.
Ter o dado disponível resolve metade do problema e saber o que fazer com ele resolve a outra. Hospitais que cruzam ocupação de leitos, histórico de internações e sazonalidade conseguem prever picos de demanda, reorganizar escalas e evitar superlotação ou ociosidade de equipamentos. Redes que analisam prontuários em escala podem identificar pacientes crônicos em risco antes da crise. A diferença entre reagir e antecipar está, em boa parte, na gestão dos dados já existentes.
Quando o histórico reúne exames, genética, hábitos e resposta a tratamentos, fica mais fácil ajustar doses, escolher terapias e antecipar reações. É a medicina personalizada, já realidade em oncologia e em expansão para doenças crônicas, cardiovasculares e neurodegenerativas. Sem uma base consolidada e confiável, porém, ela continua sendo conceito de congresso, não serviço disponível na ponta.
Em 2026, o Brasil chegou à 12ª posição no ranking mundial de estudos clínicos iniciados, mas ainda enfrenta o desafio de encontrar hospitais com o perfil adequado para recrutar participantes. A recém-criada Aliança Nacional de Dados em Saúde tenta enfrentar esse gargalo conectando mais de 1.800 Santas Casas e hospitais filantrópicos, presentes em 91% dos municípios, a farmacêuticas como Roche, Novartis e AstraZeneca, usando um data lake para padronizar prontuários e acelerar recrutamentos. Dado bem gerido pode significar tratamento chegando mais rápido a quem precisa.
Quem controla os dados também precisa ter voz sobre seu uso
Falta uma peça para amarrar essas pontas: um Open Health nos moldes do Open Finance. A proposta, apresentada pelo Ministério da Saúde em 2022, busca colocar o paciente no centro da decisão sobre quando e com quem compartilhar seu histórico clínico e financeiro, com consentimento e portabilidade. O projeto segue em construção, sem cronograma público de conclusão, e enfrenta resistência de quem questiona a aplicação da lógica financeira a um setor em que dado errado ou mal-usado custa mais do que dinheiro. O Open Finance mostrou que dados sob controle do usuário podem gerar portabilidade e serviços mais personalizados.
Na Europa, o European Health Data Space (EHDS) tenta fazer isso em escala continental. Em vigor desde março de 2025, terá implementação gradual, com as principais regras de troca de dados e uso secundário para pesquisa previstas para março de 2029. O modelo permite acesso a dados de saúde entre países e o uso de informações anonimizadas para pesquisa e políticas públicas. O desafio é que os 27 países partem de níveis diferentes de maturidade. Já se fala no risco de um “EHDS de duas velocidades”.
Construir infraestrutura é a parte visível, mas fazer todos chegarem juntos é a parte difícil e isso vale para o Brasil.
O mundo está aprendendo a construir infraestrutura de dados mais rápido do que a governá-la. O que está em jogo é uma mudança de categoria, em que dado de saúde deixa de ser apenas informação clínica e passa a ser infraestrutura crítica nacional, como energia, água ou telecomunicações.
Quando bem gerida, essa infraestrutura não serve apenas para proteger o cidadão, mas para tratá-lo melhor, pesquisar mais rápido e, um dia, devolver a ele o controle sobre a própria informação. Infraestrutura crítica exige investimento contínuo, governança séria e a humildade de reconhecer que nenhum sistema fica pronto, ele apenas fica mais maduro.
Sobre Marco Silva
É Account Manager na BU de Healthcare da Hexa IT, com mais de 20 anos de experiência em vendas consultivas de tecnologia. Engenheiro Elétrico e Eletrônico pelo Instituto Mauá de Tecnologia, com foco em Telecom, atua na conexão entre estratégia de negócio e soluções em Cybersecurity, Cloud, Infraestrutura e Inteligência Artificial, especialmente nos setores de Saúde e Educação.
Sobre a HEXA IT
A HEXA IT é uma das maiores provedoras de soluções de TI do Brasil, especializada em Segurança da Informação, Conectividade e Infraestrutura, Sistemas Cloud, Centro de Serviços e Operações (SOC e NOC), Professional Services e alocação de profissionais.
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