Redação Plenax – Flavia Andrade
Avanço da produção e das exportações coloca o país no centro do mercado mundial; proposta discutida por executivo da Bunge prevê referência baseada na fibra brasileira
O avanço do algodão brasileiro no mercado internacional pode abrir espaço para uma nova etapa de desenvolvimento da cadeia: a criação de uma referência própria de preços para a fibra produzida no país.
A possibilidade foi apresentada por Blake McClendon, líder global de algodão da Bunge, durante encontro com cerca de 200 cotonicultores promovido pela ORÍGEO, joint venture entre Bunge e UPL, durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte (MG).
Na última década, a participação do Brasil nas exportações globais de algodão passou de cerca de 7% para mais de 35%. O crescimento foi acompanhado por investimentos em produção, infraestrutura e modernização da cadeia, além da ampliação da presença da fibra brasileira em importantes mercados consumidores.
Para McClendon, o avanço mudou o papel do Brasil no abastecimento mundial. Segundo ele, o país deixou de ser uma origem complementar para se tornar um dos principais fornecedores internacionais.
“Ao longo dos últimos anos, o setor também construiu demanda para a fibra nacional, que passou a integrar de forma recorrente as compras de indústrias têxteis de países como China, Índia, Vietnã, Turquia, Paquistão e Indonésia. O mundo aprendeu a usar o algodão brasileiro, aprendeu a gostar de usar o algodão brasileiro, e o resultado é que ele não é mais uma origem de nicho”, afirmou.
Preço ainda tem referência externa
Apesar do protagonismo conquistado pelo Brasil, McClendon apontou um descompasso na formação de preços da commodity.
Atualmente, o algodão brasileiro é majoritariamente precificado e protegido por operações de hedge com referência na ICE, bolsa que concentra os contratos futuros utilizados como referência internacional.
Segundo o executivo, essa estrutura pode representar um desafio à medida que Brasil e Estados Unidos passam a responder a condições próprias de oferta e demanda.
“O algodão brasileiro tem hoje uma das infraestruturas de origem mais sofisticadas do mundo, mas seu principal benchmark está fisicamente ligado ao algodão americano”, disse.
A questão ganha relevância principalmente nas negociações antecipadas. Quando uma trading compra hoje uma produção que será entregue anos depois, precisa utilizar mecanismos de proteção para administrar o risco de variação dos preços até a entrega.
Nesse intervalo, diferenças nas condições de produção e demanda entre os dois países podem alterar a relação entre os preços das fibras brasileira e norte-americana.
“Quando vocês nos pedem para comprar o algodão com dois anos de antecedência, precisamos precificar esse risco em algum lugar. Todo risco que o comerciante não consegue proteger, no fim, chega ao preço pago ao produtor”, afirmou McClendon.
Proposta prevê referência baseada no algodão brasileiro
Como alternativa, o executivo apresentou aos produtores a possibilidade de desenvolvimento de uma referência de preços específica para o algodão brasileiro, que funcionaria de forma complementar à ICE.
A proposta utilizaria mecanismos já adotados em mercados futuros, incluindo entrega física, armazéns certificados e classificação independente da qualidade.
O diferencial estaria na origem do produto e no local de entrega. A ideia apresentada é utilizar algodão brasileiro, classificado pelo sistema da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), com entrega em armazéns certificados no Porto de Santos (SP).
“Não precisamos reinventar aquilo que já funciona. Precisamos mudar apenas dois pontos – qual algodão e onde: algodão brasileiro, classificado pelo sistema da Abrapa, entregue em armazéns certificados”, afirmou.
A proposta, segundo McClendon, buscaria criar uma referência capaz de incorporar de maneira mais direta os riscos e as características da produção e da comercialização brasileiras.
“O Brasil construiu a produção, construiu toda a infraestrutura e conquistou as indústrias têxteis ao redor do mundo. A próxima infraestrutura a ser construída pode ser a de preços”, concluiu.
Encontro reuniu produtores
A discussão ocorreu durante a programação da ORÍGEO no 15º Congresso Brasileiro do Algodão. O encontro reuniu cerca de 200 produtores e teve como foco debates sobre mercado, produção e perspectivas para a cultura.
A programação da empresa também contou com um jantar e apresentação da cantora Paula Fernandes.
Segundo Roberto Marcon, CEO da ORÍGEO, a atuação da Bunge no mercado de algodão amplia as possibilidades de integração entre soluções voltadas à produção e à comercialização.
“Com a aquisição da Viterra, a Bunge fincou posição nesse mercado e tem uma ambição bastante grande que é, juntamente conosco, ser líder em algodão no Brasil. Para isso, estamos trazendo uma série de ferramentas, desde financiamento até soluções de comercialização. Do outro lado, olhando para dentro da fazenda, temos a UPL desenvolvendo produtos e inovação para a cultura. Queremos conectar essas diferentes frentes para oferecer ao cotonicultor soluções que acompanham as necessidades do negócio dentro e fora da porteira”, afirmou.

