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Da torneira à saúde: avanço do saneamento muda rotina de famílias em Mato Grosso do Sul

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Expansão das redes de água e esgoto melhora o cotidiano de moradores, mas universalização ainda depende de levar o serviço até quem permanece fora da cobertura

“A gente vive sem luz, mas a água é vida.”

A frase da pescadora profissional Adriana Santos, de 38 anos, traduz uma mudança que pode parecer simples para quem sempre teve água encanada em casa: abrir a torneira e encontrar água potável.

Moradora da comunidade quilombola Campos Correia, em Corumbá, Adriana passou anos convivendo com o racionamento e com a necessidade de buscar água com vizinhos de uma alameda próxima. A realidade mudou em 2023, quando uma solução implantada pela Sanesul levou abastecimento regular às seis famílias da comunidade.

Nascida no local, fundado no início dos anos 1970, Adriana vive com o marido, Samuel, de 43 anos, que trabalha com turismo de pesca em barco-hotel, e os quatro filhos. Para ela, a chegada da água representou mais do que uma obra de infraestrutura.

“Passamos muitas dificuldades aqui sem água. Foram tempos difíceis. A água, quando chegava, era racionada, vinda dos vizinhos, enquanto a gente lutava para regularizar uma situação que parecia impossível”, recorda.

A experiência da família faz parte de um cenário maior de expansão do saneamento em Mato Grosso do Sul. Em março de 2026, 49 municípios tinham obras de saneamento em execução, sendo 36 frentes de ampliação do esgotamento sanitário e 13 de abastecimento de água tratada.

Uma ligação que mudou a rotina

Na comunidade Campos Correia, a solução encontrada foi conectar a rede existente às residências por meio de uma estrutura com caixas de proteção para hidrômetros. O sistema permitiu individualizar os ramais e garantir abastecimento regular às famílias.

Paulo Correia, de 48 anos, filho caçula de Fermiana de Campos Correia e Teodoro, fundadores da comunidade, acompanhou de perto a mudança.

“Antes da Sanesul trazer a água, a dificuldade era muito grande com a conexão irregular do vizinho. Não havia pressão e a água chegava só à noite. Agora, cada um tem o seu ramal. Foi uma luta muito grande, mas conseguimos vencer com o apoio da Sanesul. Agora é outro nível, temos água sem interrupção nas torneiras”, afirma.

A mudança dentro de casa ajuda a explicar por que o saneamento ultrapassa a questão da infraestrutura. O acesso à água tratada e a sistemas adequados de coleta e tratamento de esgoto está diretamente relacionado à prevenção de doenças e às condições de desenvolvimento das crianças.

O pediatra Túlio Dipe explica que a falta de saneamento pode contribuir para a ocorrência de diarreias, verminoses e infecções, com consequências que incluem desnutrição, comprometimento do crescimento e desenvolvimento e maior vulnerabilidade a outras doenças.

“Saneamento não é só infraestrutura, é prevenção em saúde. Quando esse tema é prioridade na gestão pública, os benefícios aparecem na saúde, na educação, no desenvolvimento infantil e na qualidade de vida”, afirma.

Cobertura do esgoto avança, mas desafio permanece

Nos 68 dos 79 municípios onde a Sanesul opera os serviços de água e esgoto, a cobertura de esgotamento sanitário passou de 72,34% em agosto de 2025 para 77,04% em maio de 2026.

Em 2025, foram concluídos 24 contratos de esgoto em 16 municípios.

Os números mostram expansão da cobertura, mas também revelam o tamanho do caminho que ainda precisa ser percorrido. Em maio de 2026, quase um quarto da população dos municípios considerados no levantamento permanecia fora da cobertura de esgotamento sanitário.

Outro desafio está na ligação dos imóveis à rede. A existência de tubulação na rua não significa, necessariamente, que todas as casas estejam conectadas ao sistema. Em alguns locais, moradores continuam utilizando fossas ou outras formas de descarte.

Para o governador Eduardo Riedel, essa etapa é fundamental para que a infraestrutura instalada se transforme efetivamente em serviço utilizado pela população.

“O próximo desafio é transformar infraestrutura instalada em utilização real. Isso exige orientação, fiscalização, condições financeiras para a ligação domiciliar e mecanismos de proteção aos consumidores de baixa renda”, afirma.

O marco legal do saneamento estabelece como metas o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Assim, a universalização não depende apenas da construção de novas redes. Também envolve conectar as residências aos sistemas disponíveis e garantir que o esgoto coletado seja efetivamente tratado.

Saneamento acompanha expansão econômica

A necessidade de ampliar a infraestrutura também está relacionada ao crescimento de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.

A expansão de setores como indústria de celulose, bioenergia e agroindústria tem atraído investimentos, trabalhadores e novos moradores. Com o crescimento populacional, aumenta também a demanda por moradia, saúde, educação, água, esgoto e demais serviços públicos.

Em Sidrolândia, um projeto iniciado em 2025 prevê R$ 22,8 milhões em investimentos e a implantação de 68,8 quilômetros de rede coletora de esgoto.

Em Dourados, foram anunciados mais R$ 27,1 milhões para a ampliação do sistema de esgotamento sanitário.

Na região do Bolsão, municípios como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Inocência convivem com os efeitos da expansão da indústria de celulose. Em Inocência, os investimentos previstos para 2026 ultrapassam R$ 13,1 milhões.

O cenário coloca duas necessidades simultâneas para o poder público: reduzir déficits históricos de infraestrutura e preparar as cidades para o crescimento futuro.

Onde a rede não chega, soluções precisam ser diferentes

A universalização do saneamento também apresenta desafios específicos em um Estado com comunidades rurais, assentamentos, distritos, aldeias e localidades afastadas dos centros urbanos.

Nessas regiões, a distância entre as residências pode tornar a implantação de redes convencionais tecnicamente complexa ou economicamente inviável.

Em novembro de 2025, a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul regulamentou soluções alternativas individuais e coletivas para abastecimento de água e esgotamento sanitário.

A regulamentação permite considerar sistemas descentralizados dentro das metas de universalização, desde que sejam atendidos critérios técnicos, ambientais e sanitários.

Sidrolândia passou a integrar um projeto-piloto para estudar alternativas destinadas a áreas que não são alcançadas pelas redes convencionais.

Para Riedel, as características territoriais do Estado exigem diferentes estratégias.

“Universalizar, nesse caso, não significa instalar a mesma estrutura em todo o território, mas garantir o mesmo direito por meios adequados a cada realidade”, afirma.

O desafio está além dos quilômetros de tubulação

A expansão das redes representa uma etapa importante, mas não encerra o desafio do saneamento em Mato Grosso do Sul.

Ainda existem bairros e municípios sem cobertura, imóveis que não foram conectados às redes disponíveis e comunidades que dependem de soluções específicas.

A próxima etapa envolve medir não apenas quantos quilômetros de tubulação foram instalados ou quantos contratos foram concluídos, mas quantas residências passaram efetivamente a receber água tratada, quantas estão conectadas à rede de esgoto e quanto do material coletado recebe tratamento adequado.

Na comunidade Campos Correia, essa diferença entre obra e serviço pode ser percebida dentro de casa.

Para Adriana e os demais moradores, o resultado não está apenas nos números da cobertura estadual. Está na pressão da água na torneira, na regularidade do abastecimento e no fim da dependência de uma ligação improvisada com os vizinhos.

Para quem passou anos contando cada oportunidade de conseguir água, a universalização do saneamento ganha uma dimensão concreta: abrir a torneira e saber que a água estará lá.

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