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Energia solar impulsiona beneficiamento de açaí e gera novas oportunidades na Amazônia

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Projeto da FAS e da Global Energy Alliance leva eletricidade limpa e confiável a comunidade remota do Amazonas e cria condições para ampliar a produção e a renda das famílias

Uma comunidade remota da Amazônia brasileira encontrou na energia solar uma alternativa para viabilizar um empreendimento de beneficiamento de açaí planejado há anos. Na comunidade Bela Conquista, localizada na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, no Amazonas, uma minirrede solar com armazenamento em baterias passou a fornecer a energia necessária para colocar em funcionamento a unidade comunitária de processamento da fruta.

O sistema conta com 50 kWp de potência fotovoltaica e 165 kWh de capacidade de armazenamento. A estrutura substitui a dependência de uma geração a diesel intermitente, que dificultava o funcionamento das máquinas, contribuía para perdas da produção e limitava o volume de açaí que podia ser processado localmente.

Bela Conquista é a primeira demonstração prática de um modelo que a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Global Energy Alliance for People and Planet (GEA) pretendem ampliar para até 20 projetos-piloto nos próximos dois a três anos. A iniciativa poderá alcançar até 25 comunidades da Amazônia brasileira e apoiar atividades ligadas à bioeconomia, como produção de açaí, pesca, agricultura e processamento de frutas.

Com a expansão prevista, os sistemas solares com baterias poderão gerar até 1 GWh de energia solar por ano, evitando o consumo estimado de 255 mil litros de diesel e a emissão de 680 toneladas de CO₂.

Energia para produzir e gerar renda

A instalação faz parte de uma parceria entre a FAS, a Global Energy Alliance e o Ministério de Minas e Energia (MME), com o objetivo de demonstrar como o acesso à energia renovável pode contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável de comunidades remotas.

O projeto ocorre em um cenário em que o Brasil ainda enfrenta desafios para levar eletricidade à chamada última milha. Segundo os dados apresentados pela iniciativa, quase 1 milhão de brasileiros permanecem sem acesso à eletricidade, sendo mais de 95% deles na Amazônia. Outros 2 milhões dependem de sistemas de geração a diesel.

Em locais isolados, as minirredes solares podem ampliar a disponibilidade e a qualidade da energia, além de criar condições para atividades produtivas, serviços essenciais e geração de renda.

Em Bela Conquista, a unidade de beneficiamento de açaí começou a ser planejada em 2017, a partir da iniciativa dos próprios moradores de agregar valor à produção local, ampliar o acesso a mercados e aumentar as oportunidades econômicas para as famílias.

Com o fornecimento regular de energia, a unidade tem capacidade estimada para produzir 36 mil litros de açaí por ano.

“O maior gargalo que enfrentávamos para colocar o empreendimento em funcionamento era a falta de energia confiável. Tivemos muitos problemas com a rede existente devido às condições da linha de distribuição, e a eletricidade que chegava à unidade não era suficiente para operar todas as máquinas”, explica Daniel Gama, morador de Bela Conquista e presidente do projeto da unidade de processamento.

Para Luciana Sena, moradora da comunidade e vice-secretária da unidade de beneficiamento de açaí, a nova estrutura também deve reduzir perdas e ampliar a renda das famílias.

“Agora vamos conseguir produzir mais açaí e não teremos mais as mesmas dificuldades com perdas da produção, porque teremos energia proveniente dos painéis solares. Poderemos comprar um volume maior de frutos, ter mais produto para processar na unidade e aumentar a renda das famílias”, afirma.

A minirrede também passou a atender estruturas essenciais da comunidade, como a escola, o centro comunitário, a cozinha comunitária e o poço utilizado para abastecimento de água.

Comunidade assume gestão do sistema

Além da instalação da infraestrutura, a parceria prevê capacitação dos moradores para a gestão, operação e manutenção dos equipamentos.

A proposta é que a própria comunidade assuma a responsabilidade pelos ativos energéticos e pela unidade de processamento, fortalecendo a autonomia local e a sustentabilidade da iniciativa no longo prazo.

“Os comunitários receberão todas as atividades de capacitação e treinamento previstas desde a concepção do projeto. Eles serão responsáveis pela gestão, operação e manutenção dos ativos implementados em suas comunidades”, afirma Thiago Carvalho, líder de Projetos Renováveis da FAS.

Para Luisa Valentim, diretora Brasil da Global Energy Alliance, o acesso à energia deve estar associado à criação de oportunidades econômicas e à permanência das comunidades em seus territórios.

“Este é um projeto extraordinário, no qual buscamos utilizar a energia como vetor de prosperidade, criando condições para que as comunidades permaneçam nos territórios onde escolheram viver, com qualidade de vida e oportunidades de geração de renda, ao mesmo tempo em que contribuem para a conservação da Floresta Amazônica”, afirma.

Bioeconomia como alternativa ao desmatamento

A unidade de beneficiamento também é vista pelos moradores como uma forma de fortalecer atividades econômicas baseadas nos recursos disponíveis na própria floresta.

“Nossa expectativa é que as pessoas reduzam o desmatamento para plantio e criação e que possamos depender cada vez mais das atividades extrativistas, aproveitando da floresta aquilo que ela já nos oferece. Temos castanha-do-brasil e também o açaí, que hoje é nosso principal produto. Podemos colher da natureza sem desmatar e sem prejudicar nossa floresta”, afirma Luzia Pinto, uma das matriarcas da comunidade.

O superintendente-geral da FAS, Virgilio Viana, considera Bela Conquista um exemplo do potencial de iniciativas que combinam conservação ambiental, acesso à energia e geração de renda.

“Bela Conquista é uma comunidade que serve de referência e merece ser conhecida por todos que sonham com uma Amazônia mais justa e sustentável. Ela mostra que é possível. O grande desafio é multiplicar exemplos como este”, afirma.

Projeto prevê expansão para outras comunidades

O projeto Luz na Floresta é desenvolvido pela Fundação Amazônia Sustentável, pela Global Energy Alliance e pelo Ministério de Minas e Energia. A iniciativa busca promover desenvolvimento local e autonomia econômica em comunidades remotas da Amazônia brasileira.

A expectativa é beneficiar mais de 600 famílias por meio do uso produtivo da energia e da implementação de soluções que também possam contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à universalização do acesso à eletricidade e à geração de oportunidades econômicas.

Entre os territórios e comunidades contemplados estão a Aldeia Serra da Moça, no Território Indígena Serra da Moça, em Boa Vista (RR); a Comunidade Nossa Senhora do Livramento (Uixi), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, em Beruri (AM); Bela Conquista, na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, em Tefé (AM); a Comunidade Tamaniquá, na região do Médio Solimões (AM); e as comunidades Santa Maria do Boiaçu, Cachoeirinha e Caicubi, na região do Baixo Rio Branco (RR).

Nas comunidades atendidas, o projeto estabelece como metas alcançar 80% de disponibilidade de energia e mais do que triplicar a receita proveniente da produção de açaí.

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