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NR-1: “A empresa vai provar que controlou o risco psicossocial com o quê?”, questiona COO da Vitta

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Na primeira edição do Setembro Amarelo após o fim do período de orientação da nova regra, Rodrigo Metedieri Miguel apresenta dados de um ano de acompanhamento clínico e aponta o abandono do tratamento como um dos principais desafios para as empresas

O Setembro Amarelo de 2026 chega em um cenário diferente dos anos anteriores para as empresas. A saúde mental, além de tema de conscientização, passou a integrar as obrigações relacionadas ao gerenciamento de riscos ocupacionais.

Desde 26 de maio, conforme o cronograma estabelecido pelas Portarias MTE nº 1.419/2024 e nº 765/2025, os fatores de risco psicossocial passaram a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas com empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nos 90 dias seguintes, a fiscalização adotou o critério de dupla visita, priorizando a orientação. Esse período terminou no fim de agosto.

O cenário também é acompanhado pelo aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em relação ao ano anterior. Transtornos ansiosos e episódios depressivos estão entre os principais motivos das concessões.

No ambiente corporativo, entretanto, um dos desafios está em transformar a identificação dos riscos em ações capazes de produzir resultados mensuráveis.

Para Rodrigo Metedieri Miguel, cofundador e COO da Vitta, muitas empresas concentram esforços na elaboração da documentação exigida, mas ainda têm dificuldades para demonstrar o que foi feito depois que um risco é identificado.

“A norma tem dois verbos, identificar e controlar. O mercado se organizou muito rápido em torno do primeiro, porque é o que gera papel, e quase nada em torno do segundo”, afirma.

A Vitta atua na adequação de empresas à NR-1 e também mantém o Hospital Digital, estrutura de cuidado com equipe própria de médicos e psicólogos, prontuário integrado e acompanhamento longitudinal.

Entre março de 2025 e março de 2026, a empresa acompanhou a evolução clínica de pacientes em atendimento psicológico utilizando os instrumentos GAD-7 e PHQ-9, escalas utilizadas para avaliação de sintomas de ansiedade e depressão. Segundo Miguel, os resultados ajudam a evidenciar uma questão pouco mensurada no ambiente corporativo: o que acontece com o trabalhador depois que o risco é identificado e o tratamento é iniciado.

Identificar o risco não significa controlá-lo

Para o executivo, o questionário de risco psicossocial é necessário, mas não substitui o acompanhamento clínico.

“Serve, e é obrigatório. Só não é suficiente, e sobretudo não é a mesma coisa que avaliação clínica. O questionário de risco psicossocial olha para a organização do trabalho, para jornada, autonomia, relações hierárquicas e clareza de papel. Instrumento clínico olha para a pessoa que já adoeceu”, explica.

Na avaliação da Vitta, cerca de 88% dos casos avaliados pela escala de ansiedade e 90% dos avaliados pela escala de depressão apresentavam algum nível de risco no início do acompanhamento.

Entre os pacientes que passaram por nova avaliação, aproximadamente 83% apresentaram melhora na escala de ansiedade, enquanto todos os pacientes reavaliados na escala de depressão registraram alguma evolução.

Miguel ressalta, entretanto, que os resultados não representam necessariamente cura ou ausência de recaídas.

“Não é cura e não é ausência de recaída. É evidência de que o tratamento acompanhado move o quadro, o que já é mais do que a maior parte do mercado consegue demonstrar”, afirma.

Abandono do tratamento é ponto de atenção

Outro dado destacado pelo executivo é a interrupção precoce do acompanhamento. Segundo ele, levantamentos internacionais apontam taxas de abandono que podem variar de cerca de 20% a quase 50%, dependendo do tratamento e dos critérios utilizados.

Na base analisada pela Vitta, o padrão também foi observado. Entre os pacientes que interromperam o acompanhamento, cerca de 38% estavam em alto risco na escala de ansiedade e 33% apresentavam quadro grave na avaliação de depressão.

“Dentro do grupo que desiste, quem mais precisava do tratamento está super-representado”, afirma Miguel.

Para ele, o dado mostra que disponibilizar atendimento psicológico não é suficiente. É necessário acompanhar a continuidade do tratamento, especialmente nas primeiras semanas.

“A empresa não consegue demonstrar controle de risco se não sabe o que aconteceu com o trabalhador que ela própria encaminhou”, argumenta.

Coordenação de cuidado pode ampliar resultados

O acompanhamento também permitiu avaliar o impacto da coordenação de cuidado nos casos considerados mais graves.

Segundo Miguel, parte significativa das melhoras ocorreu a partir do próprio trabalho clínico dos psicólogos. Nos quadros de maior gravidade, porém, a coordenação de cuidado teve papel relevante.

Entre os casos coordenados, a empresa registrou transição de quadros graves e moderadamente graves para a categoria saudável na avaliação de depressão, além de redução de alto para baixo risco nos casos de ansiedade.

“A conclusão honesta é que coordenação potencializa, mas não determina. Ela é cara e deve ser dirigida a quem está pior, não distribuída uniformemente”, afirma.

Saúde mental exige acompanhamento contínuo

Outro indicador acompanhado pela empresa é o uso de medicamentos relacionados à saúde mental, categoria que, segundo Miguel, lidera os subsídios oferecidos pela companhia.

Para o executivo, o dado demonstra que a demanda por cuidados em saúde mental é contínua e reforça a importância da adesão ao tratamento.

“Saúde mental não falha por falta de oferta, falha por falta de continuidade”, resume.

Com o fim do período de orientação da nova regra, Miguel aponta três prioridades para as empresas: realizar uma avaliação consistente dos riscos psicossociais, garantir acesso a um caminho clínico acompanhado e mensurar a continuidade e os resultados do cuidado.

“A primeira é fazer a avaliação de risco psicossocial de verdade, com metodologia descrita e resultado registrado. A segunda é garantir que exista um caminho clínico real para quem for identificado, com acompanhamento e mensuração. A terceira, e a mais negligenciada, é medir continuidade”, afirma.

Segundo ele, limitar os indicadores a número de palestras realizadas ou sessões utilizadas não permite compreender se o risco identificado está sendo efetivamente controlado.

“Se em setembro a sua empresa só conseguir responder quantas palestras fez e quantas sessões foram consumidas, ela não vai conseguir demonstrar controle de risco na próxima fiscalização. E, mais importante que a fiscalização, não vai saber quem ficou pelo caminho.”

Sobre Rodrigo Metedieri Miguel

Rodrigo Metedieri Miguel é cofundador e COO da Vitta, healthtech adquirida pela StoneCo (NASDAQ: STNE) em 26 de maio de 2020. Ele lidera a unidade de Hospital Digital, responsável pela estrutura assistencial voltada ao acompanhamento de diferentes episódios de saúde, incluindo ansiedade e depressão.

O serviço conta com equipe própria de médicos e psicólogos, prontuário integrado e remuneração da rede médica baseada em indicadores do Quíntuplo Aim, que considera experiência do paciente, desfecho clínico, custo, equidade e saúde do profissional.

Segundo a empresa, a operação registra CSAT clínico de 96, resolutividade de 92% e 3% de encaminhamento para pronto-socorro físico. O serviço também foi reconhecido em primeiro lugar entre os serviços de saúde no Prêmio Reclame Aqui 2025, com nota 9,8.

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