Redação Plenax – Flavia Andrade
Programa atende alunas em três escolas estaduais e busca conciliar educação, cuidados com a família e construção de novos projetos de vida
Aos 44 anos, Nicácia Tereira de Paula decidiu voltar para a escola depois de enfrentar uma sequência de dificuldades pessoais. Diarista, mãe de quatro filhos e avó de sete netos, ela passou por um câncer, perdeu o pai, enfrentou problemas familiares, depressão e um período de isolamento.
Foi nesse momento que surgiu a oportunidade de retomar os estudos por meio do EJA Mulher.
“Eu estava muito depressiva, vivia sob medicação e me isolei. Quando surgiu o EJA Mulher, não pensei duas vezes. Com o apoio dos meus filhos e netos, me matriculei e, lá, me reencontrei”, conta.
A volta aconteceu na Escola Estadual Vereador Cristóvão Silveira, no Jardim Noroeste, em Campo Grande. Entre as estudantes, a unidade ganhou um apelido que traduz a relação construída no ambiente escolar: Escola do Amor.
Para Nicácia, concluir os estudos passou a representar mais do que recuperar uma etapa interrompida. Significou voltar a estabelecer planos para o futuro.
“Vi que poderia dar continuidade a tudo aquilo que deixei para trás. Hoje, meu maior desejo é viver, concluir meus estudos e me formar. Se Deus quiser, vou chegar lá.”
A trajetória da estudante ajuda a mostrar a proposta do EJA Mulher, programa do Governo de Mato Grosso do Sul voltado a mulheres jovens, adultas e idosas dentro das políticas estaduais de educação, autonomia e direitos das mulheres.
Atualmente, quase 300 mulheres participam da iniciativa em três escolas da Rede Estadual de Ensino. Ao todo, a Educação de Jovens e Adultos reúne cerca de 5,7 mil estudantes na rede estadual.
Voltar a estudar exige mais do que uma vaga
Para muitas estudantes, o principal obstáculo não está necessariamente dentro da sala de aula. Trabalho, maternidade, cuidados com familiares e dificuldades financeiras podem tornar a permanência na escola um desafio.
Nicácia encontrou uma solução para uma dessas dificuldades. Para não deixar os netos sozinhos, passou a levá-los para a escola enquanto assistia às aulas.
A unidade oferece um espaço para receber as crianças, permitindo que mães e avós consigam conciliar os cuidados familiares com os estudos.
“Eu levava meus netos comigo para não deixá-los sozinhos e também não faltar às aulas. Temos profissionais dedicados e amorosos que cuidam das crianças”, relata.
O acolhimento recebido também fez com que Nicácia passasse a incentivar outras mulheres a retomarem os estudos, principalmente aquelas que enfrentam situações de violência ou relacionamentos abusivos.
“Eu falo: ‘Gente, estudem, voltem para a escola’. Ali encontramos acolhimento, profissionais excelentes e pessoas em quem podemos nos espelhar.”
Para ela, a relação construída com a escola explica o nome dado pelas próprias estudantes à unidade.
“A Escola do Amor surgiu na minha vida no momento em que eu mais precisei.”
Quando o exemplo de uma mãe muda os sonhos dos filhos
Na mesma escola, a história de Geovana Ojeda de Moraes, de 32 anos, mostra outro efeito provocado pelo retorno à sala de aula.
Mãe de três filhos e trabalhadora da construção civil, ela decidiu retomar os estudos depois de um período difícil. Um acidente grave envolvendo o filho do meio fez com que começasse a pensar em novas possibilidades profissionais.
A partir daí, profissões ligadas à área da saúde passaram a fazer parte dos seus planos, como técnica de enfermagem, fisioterapia e neurologia.
“Eu vi aquilo não só como um recomeço, mas como uma forma de ampliar minhas metas e meus objetivos.”
A rotina, entretanto, continuou exigente. Geovana precisava dividir o tempo entre o trabalho, os filhos e a escola.
“Eu achei que não daria conta”, lembra.
Em alguns momentos, as dificuldades financeiras também colocaram à prova sua permanência nos estudos.
“Teve dias muito difíceis, em que faltava alimento em casa. E, mesmo assim, eu vinha para a escola. Muitas vezes, era aqui que meus filhos jantavam.”
A experiência mostra como a permanência na EJA pode depender de uma estrutura que considere a realidade das estudantes. Para mulheres que trabalham, cuidam dos filhos e enfrentam dificuldades econômicas, voltar à escola é apenas o primeiro passo.
Nove meses depois de retomar os estudos, Geovana já identifica mudanças na própria forma de se enxergar.
“Minha mente é mais forte, mais confiante. Eu sei quem eu sou e onde quero chegar.”
A transformação também chegou aos filhos. Depois de receber uma nota 8,5, a filha de 12 anos contou à mãe que queria seguir seu exemplo.
Agora, as duas compartilham um novo objetivo: chegar à faculdade.
“Ela falou que queria ser como eu, tirar as melhores notas. Hoje, sonha em fazer faculdade comigo. E isso não tem preço.”
Educação como caminho para autonomia
As histórias de Nicácia e Geovana ajudam a dar dimensão humana aos números do programa.
No conjunto da Rede Estadual de Ensino, são 5,7 mil estudantes matriculados na EJA. Dentro desse universo, quase 300 mulheres participam do EJA Mulher em três escolas.
A proposta do programa é ampliar o acesso e criar condições para que essas estudantes consigam permanecer na escola, considerando as particularidades de uma rotina que, muitas vezes, envolve trabalho, filhos e responsabilidades familiares.
Segundo o Governo de Mato Grosso do Sul, a iniciativa integra as políticas estaduais voltadas à educação e à promoção da autonomia e dos direitos das mulheres.
“Quando uma mulher volta para a escola, ela não está apenas retomando os estudos. Muitas vezes, está retomando projetos que foram interrompidos pela necessidade de trabalhar, cuidar dos filhos e da família ou enfrentar situações muito difíceis ao longo da vida”, afirma o governador Eduardo Riedel.
Para o governador, além da matrícula, é necessário criar condições para que as estudantes permaneçam na escola e possam construir novas perspectivas.
A experiência das alunas mostra justamente esse processo. Uma mãe que retorna aos estudos pode se tornar referência para os filhos. Uma avó que volta à sala de aula mostra aos netos que projetos pessoais podem ser retomados. E uma mulher que recupera a confiança passa a enxergar novas possibilidades profissionais e pessoais.
Geovana resume a transformação vivida desde que decidiu voltar a estudar:
“O amor é isso: transformar uma vida sem sentido em sonhos, motivações e exemplo para o futuro.”
No Jardim Noroeste, esse processo acontece diariamente em situações simples: uma estudante que enfrenta o cansaço para assistir à aula, uma avó que leva os netos consigo para conseguir permanecer na escola e uma menina que passa a sonhar com a faculdade ao ver a própria mãe retomando os estudos.
Para Nicácia, o tempo não encerrou seus projetos. Para Geovana, o recomeço também abriu novos caminhos.
E, para quase 300 mulheres atendidas pelo EJA Mulher, voltar à escola pode representar exatamente isso: a oportunidade de retomar planos que, por diferentes circunstâncias da vida, precisaram ser interrompidos.

