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Preabilitação pediátrica, preparar hoje para operar melhor amanhã

Foto: Divulgação

*Por Dr. Christian Campos Ferreira, Cirurgião pediátrico da Unimed Nova Iguaçu

Como cirurgião pediátrico, há uma pergunta que tem me acompanhado com cada vez mais força dentro do consultório: será que a preparação de uma criança para uma cirurgia começa, de fato, na consulta pré-operatória?

A prática consagrada é conhecida. Pedimos exames, encaminhamos para avaliação anestésica, explicamos o procedimento à família na semana que antecede a internação. É um protocolo sólido, testado, indispensável. Mas, depois de anos operando crianças, comecei a suspeitar que existe uma camada de preparo ainda mais decisiva, uma que não cabe em uma consulta, porque começa meses, e às vezes anos, antes de a criança pisar no centro cirúrgico.

Todo procedimento cirúrgico é, fisiologicamente, uma agressão controlada. Depois do corte, o organismo precisa cicatrizar tecidos, sustentar a função cardiovascular e respiratória sob estresse, conter o risco de infecção e reconstruir a massa muscular perdida no pós-operatório. Nada disso começa na sala de cirurgia, é resultado direto da reserva fisiológica que a criança já carrega ao entrar nela.

Crianças que praticam esporte e atividade física com regularidade, e que têm uma alimentação equilibrada, não são apenas “mais fortes” no sentido coloquial da palavra. Elas chegam à cirurgia com melhor capacidade cardiovascular, maior reserva muscular e uma resposta imunológica mais eficiente três variáveis que, na prática clínica, se traduzem em recuperações mais rápidas e com menos complicações.

O caminho inverso também é real, e talvez mais preocupante diante dos índices crescentes de sedentarismo infantil no Brasil. Maus hábitos alimentares e a ausência de atividade física corroem essa reserva fisiológica ao longo dos anos. O resultado é um organismo com menos margem de segurança para absorver o estresse cirúrgico exatamente quando mais precisa dela.

Esse raciocínio não nasceu na pediatria. Em cirurgias oncológicas e de grande porte em adultos, o conceito de preabilitação prepara o paciente física e nutricionalmente antes da cirurgia, e não apenas reabilitá-lo depois, já é objeto de estudo consistente. As evidências disponíveis indicam que pacientes que chegam ao procedimento em melhores condições clínicas tendem a ter recuperação mais eficiente e menor incidência de complicações pós-operatórias.

Na cirurgia pediátrica, a literatura específica ainda é escassa e precisamos de mais estudos dedicados a essa população antes de transformar a reabilitação em protocolo formal. Mas os fundamentos fisiológicos que sustentam esse conceito em adultos não são exclusividade da vida adulta e há bons motivos para acreditar que o mesmo princípio se aplique, com igual ou maior relevância, a organismos ainda em desenvolvimento.

Se essa hipótese se confirmar e tudo indica que sim, talvez seja hora de ampliar o próprio conceito de preparo pré-operatório. Ele não precisa, e talvez não deva, se restringir à semana que antecede a cirurgia. Pode começar muito antes: na quadra, na piscina, no parque, na bicicleta, à mesa das refeições em família.

Isso reposiciona também o papel do médico. Como cirurgiões, tendemos a concentrar nossa atuação no ato operatório propriamente dito. Mas cada consulta pediátrica, inclusive as que nada têm a ver, a princípio, com uma cirurgia futura, é uma oportunidade de educação em saúde. Um espaço para estimular hábitos que vão beneficiar não apenas uma eventual recuperação cirúrgica, mas a trajetória de saúde daquela criança pelas próximas décadas.

No fim das contas, talvez estejamos diante de algo maior do que um ajuste de protocolo. Preparar uma criança para uma cirurgia pode significar, na prática, preparar uma vida inteira para ser mais saudável usando a cirurgia como ponto de partida para uma conversa que a medicina pediátrica precisa ter com mais frequência: a de que corpo ativo e bem nutrido não é luxo, é reserva de saúde.

Se essa reserva começa a ser construída anos antes de qualquer indicação cirúrgica, então a resposta à pergunta que abre este texto é clara: não, a preparação para uma cirurgia não começa na consulta pré-operatória. Ela começa muito antes na infância que estamos, todos os dias, ajudando a construir.

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