Redação Plenax – Flavia Andrade
Campanha amplia o debate sobre saúde emocional, mas especialistas defendem que acolhimento e acesso à ajuda não podem ficar restritos ao mês de setembro
O Setembro Amarelo coloca novamente a prevenção ao suicídio no centro do debate sobre saúde emocional. Embora a campanha concentre ações de conscientização durante o mês, especialistas alertam que a prevenção precisa fazer parte da rotina de famílias, escolas, empresas e demais espaços de convivência ao longo de todo o ano.
Para Hilda Medeiros, educadora executiva, escritora e criadora do Método L.E.G.A.D., um dos principais desafios é transformar a conscientização em práticas permanentes de escuta e acolhimento, criando condições para que pessoas em sofrimento consigam falar sobre o que estão vivendo e buscar ajuda.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) dimensionam a importância do tema. Relatório publicado pela entidade em 2025 estima que 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021, último ano com dados globais consolidados pela organização. Entre pessoas de 15 a 29 anos, o suicídio foi a terceira principal causa de morte.
Nem sempre o sofrimento é evidente
Um dos desafios da prevenção está na dificuldade de identificar situações de sofrimento emocional. Uma pessoa pode continuar trabalhando, estudando, cuidando da família e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta dificuldades que não são percebidas por quem está ao redor.
No ambiente profissional, essa situação pode ser agravada pela associação entre produtividade, resistência e capacidade de lidar permanentemente com situações de pressão.
“Continuar funcionando não significa necessariamente estar bem. Existem profissionais que entregam resultados, tomam decisões e cuidam de outras pessoas enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento que já não conseguem organizar sozinhos”, afirma Hilda.
Segundo a especialista, a dificuldade pode ser ainda maior entre pessoas em posições de liderança, quando demonstrar vulnerabilidade é interpretado como sinal de incapacidade.
“Quando admitir sofrimento parece incompatível com competência, pedir ajuda se torna ainda mais difícil. Nenhum cargo suspende a condição humana”, acrescenta.
Julgamento pode afastar quem precisa de ajuda
A forma como o comportamento suicida é abordado também influencia a possibilidade de uma pessoa procurar apoio. Expressões que associam o sofrimento a fraqueza, egoísmo ou falta de vontade podem reforçar a culpa e o silêncio.
A OMS aponta que o comportamento suicida está relacionado a uma combinação de fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. Entre situações que podem estar associadas ao risco estão perdas, isolamento social, conflitos nos relacionamentos, dificuldades financeiras, doenças, violência e abuso.
A organização também destaca o estigma relacionado à saúde mental e ao suicídio como uma das barreiras que dificultam a busca por ajuda.
Para Hilda, a escuta precisa evitar julgamentos e respostas simplistas.
“Precisamos aprender a escutar sem reduzir a dor do outro a uma explicação simples demais. Nem toda dor precisa imediatamente de conselho, comparação ou de uma frase positiva. Algumas precisam, primeiro, ser levadas a sério”, afirma.
Prevenção envolve toda a sociedade
A prevenção ao suicídio não depende exclusivamente dos serviços de saúde. A OMS recomenda estratégias que envolvam diferentes setores da sociedade, incluindo educação, trabalho, comunicação e políticas públicas.
No ambiente profissional, campanhas e palestras podem contribuir para ampliar o debate, mas precisam estar acompanhadas de espaços seguros para que trabalhadores possam falar sobre dificuldades e buscar apoio sem medo de julgamento.
Em escolas e famílias, atenção a mudanças de comportamento e manifestações de sofrimento também pode contribuir para a construção de uma rede de apoio. Quando houver sinais de sofrimento intenso ou risco, a orientação é buscar atendimento de profissionais e serviços especializados.
Em 2025, o Centro de Valorização da Vida (CVV) utilizou no Setembro Amarelo o tema “Conversar pode mudar vidas”, reforçando a importância do diálogo e da escuta.
Para Hilda Medeiros, o principal resultado da campanha deve permanecer depois que setembro terminar.
“O Setembro Amarelo é necessário porque ilumina um assunto que permaneceu escondido por muito tempo. Mas sua maior contribuição deve ser mudar aquilo que fazemos depois dele.”
A prevenção, portanto, não deve se limitar às campanhas de setembro. Manter espaços de diálogo, reduzir o estigma e levar manifestações de sofrimento a sério são atitudes que podem contribuir para que pessoas em situação de vulnerabilidade tenham mais condições de buscar ajuda.
Onde buscar ajuda
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Em situações de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de emergência ou uma unidade de atendimento de saúde.

