Redação Plenax – Flavia Andrade
Dados da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher revelam a distância entre a violência vivenciada pelas mulheres e aquela que chega aos registros oficiais e aos serviços de proteção
Cerca de 32% das mulheres de Mato Grosso do Sul relataram ter vivido, nos 12 meses anteriores à pesquisa, ao menos uma situação concreta de violência doméstica ou familiar, embora não tenham declarado espontaneamente ter sofrido violência. O percentual está dentro da margem de erro da estimativa nacional, de 29%, e não permite afirmar que o cenário do estado seja diferente do observado no país.
Os dados fazem parte da atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, que incorporou resultados por unidade da Federação da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025. A plataforma é mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), pelo Instituto Natura e pela Gênero e Número.
O cruzamento entre as respostas permite dimensionar uma parcela da violência que não aparece necessariamente nas estatísticas oficiais. A diferença entre declarar espontaneamente ter sofrido violência e relatar situações concretas de agressão revela um dos principais desafios para as políticas de prevenção, proteção e acolhimento: muitas mulheres podem vivenciar situações de violência sem reconhecê-las ou nomeá-las dessa forma.
A pesquisa ouviu 21.641 mulheres de 16 anos ou mais em todo o país, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. A amostra é probabilística e possui nível de confiança de 95%.
“Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.
Violência doméstica atinge diferentes dimensões da vida
Em Mato Grosso do Sul, 31% das entrevistadas afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Considerando os 12 meses anteriores à pesquisa, 13% relataram ter passado por violência doméstica ou familiar.
Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência provocada por um homem, 89% relataram violência psicológica, 84% violência moral e 81% violência física. Em 64% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão.
A violência também permanece presente na vida de parte das vítimas mesmo após o episódio. Do total de mulheres que sofreram violência no estado, 18% ainda convivem com a pessoa que as agrediu. Entre essas vítimas, 75% moram com o agressor.
Nas situações consideradas mais graves, 62% das entrevistadas disseram que o agressor estava com ciúmes, enquanto 51% afirmaram que ele estava inconformado com o término ou com uma tentativa de término do relacionamento. Em 49% dos casos, as mulheres relataram que o agressor estava bêbado.
A violência também influencia decisões e compromete a rotina. Entre as mulheres que encerraram o relacionamento com o agressor, 83% afirmaram que a violência teve muita influência nessa decisão. O cotidiano foi afetado para 67% das vítimas, enquanto 65% relataram impactos no convívio com outras pessoas.
Os efeitos também alcançam a vida profissional e os estudos: 48% disseram ter sofrido impactos no trabalho remunerado e 45% afirmaram que os estudos foram prejudicados.
“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado. A violência não termina quando a agressão acaba. Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.
Conhecimento sobre mecanismos de proteção ainda é desigual
Apesar da ampla familiaridade com alguns serviços, o conhecimento sobre os instrumentos legais de proteção permanece limitado.
A Delegacia da Mulher é conhecida ou já foi ouvida por 93% das sul-mato-grossenses entrevistadas. A Defensoria Pública aparece com 91%, seguida pelo CRAS ou CREAS, com 88%, e pelo Ligue 180, com 78%.
Quando o assunto é a legislação, entretanto, o conhecimento é menor. Embora 66% afirmem conhecer pouco a Lei Maria da Penha, outros 12% dizem não conhecer nada sobre a legislação. Em relação às medidas protetivas, 66% afirmam conhecê-las pouco e 16% não têm conhecimento sobre o recurso.
Outro dado chama atenção para a dimensão social do problema: 70% das entrevistadas afirmaram conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar.
Para 83% das sul-mato-grossenses, a violência doméstica e familiar contra as mulheres aumentou nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, 64% consideram o Brasil um país “muito machista”.
Violência vivenciada pode não chegar aos registros
No cenário nacional, a diferença entre a violência relatada espontaneamente e aquela identificada a partir de perguntas específicas é ainda mais expressiva.
Segundo a pesquisa, quase 29 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento. Desse total, aproximadamente 24,97 milhões, ou 87%, relataram situações concretas de violência sem identificá-las espontaneamente como violência.
Somando-se a esse grupo as 1,87 milhão de mulheres que declararam ter sofrido violência, mas não procuraram a delegacia, o Ligue 180 ou o 190, chega-se a 26,84 milhões de mulheres — 93,6% das vítimas — que ficaram fora da busca por proteção policial.
A diferença aparece também na própria forma de perguntar. Apenas 4% das brasileiras declararam espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores. Quando foram apresentadas situações específicas, sem mencionar diretamente o termo “violência”, o percentual chegou a 33%.
Na prática, 29% das mulheres brasileiras vivenciaram situações compatíveis com violência doméstica, mas não as identificaram espontaneamente como violência.
Para Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura, esse resultado evidencia uma barreira anterior ao acesso aos serviços de proteção.
“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo”, afirma.
Segundo ela, ampliar o acesso à informação é parte fundamental da estratégia de enfrentamento. “Não basta que a rede esteja preparada para acolher quem chega; precisamos também criar caminhos para alcançar quem ainda não consegue reconhecer que pode buscar ajuda.”
Dados ajudam a revelar uma realidade que não aparece nos registros
Para os responsáveis pelo levantamento, a principal contribuição do Mapa Nacional da Violência de Gênero está justamente em permitir comparar a violência identificada pela pesquisa com aquela que chega aos mecanismos oficiais de proteção.
“Creio que a grande contribuição do Senado Federal seja revelar a realidade da violência doméstica contra as mulheres, em todas as unidades da Federação, e, mais importante, expor claramente como esta realidade ainda está muito distante dos registros oficiais”, afirma José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.
A análise reforça que enfrentar a violência contra as mulheres não depende apenas da resposta aos casos já denunciados. O desafio também envolve ampliar o conhecimento sobre direitos, facilitar o acesso aos serviços e criar condições para que mulheres que ainda não reconhecem determinadas situações como violência possam identificar o problema e buscar apoio com segurança.
Acesse o Mapa Nacional da Violência de Gênero e os resultados da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher para consultar os dados completos por estado.

