Redação Plenax – Flavia Andrade
Estudos apontam que o aleitamento materno está associado à redução do risco de câncer de mama e podem ajudar a explicar como mudanças no tecido mamário e no sistema imunológico contribuem para esse efeito
O câncer de mama continua entre os principais desafios da saúde feminina. Em 2022, mais de 2 milhões de mulheres receberam o diagnóstico da doença no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos por ano no triênio 2026-2028, considerando os tumores de mama como o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres, depois dos cânceres de pele não melanoma.
O desenvolvimento da doença está relacionado a uma combinação de fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais. Idade, predisposição genética, obesidade, consumo de álcool e sedentarismo estão entre os fatores associados ao risco. Nesse cenário, a amamentação aparece como um dos fatores potencialmente modificáveis associados à redução do risco de câncer de mama.
Segundo Luciana Landeiro, líder nacional da especialidade de tumores de mama da Oncoclínicas, a relação entre aleitamento e câncer de mama vem sendo observada há décadas e, mais recentemente, estudos passaram a investigar os mecanismos biológicos que podem ajudar a explicar essa associação.
“A amamentação é um dos poucos fatores modificáveis que demonstram impacto consistente na redução desse risco e, nos últimos anos, passamos a entender melhor os mecanismos biológicos que explicam esse benefício”, afirma.
Mais do que os benefícios conhecidos para o bebê, o aleitamento materno parece estar relacionado a alterações de longo prazo no tecido mamário e no sistema imunológico da mulher. Essas mudanças podem contribuir para reduzir o risco de determinados tumores, especialmente alguns subtipos mais agressivos, como o câncer de mama triplo negativo.
Uma possível memória imunológica
Um estudo publicado em 2025 na revista Nature, liderado por pesquisadores do Peter MacCallum Cancer Centre, na Austrália, trouxe novos elementos para compreender essa relação.
Os pesquisadores analisaram tecidos mamários saudáveis de mais de 260 mulheres e observaram que aquelas que haviam passado pelo ciclo de gravidez, amamentação e desmame apresentavam maior quantidade de linfócitos T CD8+, células do sistema imunológico capazes de reconhecer e eliminar células anormais.
Um dos achados que mais chamou atenção foi a permanência dessas células por mais de 30 anos após a gestação.
Em experimentos com modelos animais, os pesquisadores também observaram menor crescimento de tumores mamários em fêmeas que haviam passado pela gestação e amamentação. Quando os linfócitos foram removidos experimentalmente, esse efeito deixou de ser observado.
Os resultados ajudam a sustentar a hipótese de que alterações imunológicas desencadeadas durante a gestação e a lactação podem contribuir para uma proteção prolongada contra o câncer de mama.
A pesquisa também avaliou mulheres diagnosticadas com câncer de mama triplo negativo. Nesse grupo, aquelas que haviam amamentado apresentavam maior presença dessas células de defesa nos tumores e melhores desfechos clínicos.
“Outro aspecto importante é que os autores não se limitaram à observação em mulheres. Eles conseguiram reproduzir o fenômeno em modelos experimentais e demonstrar que, quando essas células imunológicas eram removidas, o efeito protetor desaparecia. Isso fortalece a hipótese de uma relação causal entre a resposta imunológica induzida pela amamentação e a redução do risco de câncer de mama, especialmente do subtipo triplo negativo”, acrescenta Luciana.
O tempo de amamentação faz diferença?
A associação entre duração do aleitamento e redução do risco já havia sido observada em grandes estudos epidemiológicos.
Uma análise publicada em 2002 na revista The Lancet reuniu dados individuais de 47 estudos realizados em 30 países, envolvendo mais de 50 mil mulheres com câncer de mama e aproximadamente 97 mil sem a doença.
Segundo essa análise, cada 12 meses acumulados de amamentação estiveram associados a uma redução de aproximadamente 4,3% no risco de câncer de mama. O efeito se somava à redução associada a cada gestação.
Uma revisão publicada posteriormente também reforçou a associação entre aleitamento e menor risco, com resultados particularmente relevantes para alguns grupos de maior risco.
Entre os achados citados estão:
redução de aproximadamente 20% no risco de câncer de mama triplo negativo;
redução entre 22% e 55% do risco entre mulheres com mutação no gene BRCA1 que amamentaram por mais de um ano.
“Existe uma relação dose-resposta bastante consistente. Quanto maior o tempo total de amamentação ao longo da vida reprodutiva, maior tende a ser o efeito protetor. Isso não significa que poucos meses não tragam benefícios, mas a literatura mostra que períodos mais prolongados oferecem vantagens adicionais para a saúde materna”, afirma Luciana.
Por que o triplo negativo chama atenção?
O câncer de mama triplo negativo representa aproximadamente 10% a 15% dos casos e está entre os subtipos mais agressivos da doença. Em comparação com outros tipos de câncer de mama, apresenta maior risco de recorrência e menos opções de tratamento direcionado.
Os pesquisadores australianos levantam a hipótese de que a maior atividade imunológica naturalmente observada nesse tipo de tumor possa ajudar a explicar por que o efeito associado à amamentação parece particularmente relevante nesse subtipo.
Isso não significa, porém, que a proteção esteja restrita ao câncer triplo negativo. Outros tipos de câncer de mama também podem ser influenciados pelas alterações provocadas pela gestação e pela lactação, mas essa relação ainda está sendo investigada.
Amamentar reduz o risco, mas não elimina a possibilidade de câncer
Um ponto importante é diferenciar redução de risco de proteção absoluta.
A amamentação não impede que uma mulher desenvolva câncer de mama. O risco individual resulta da combinação de diversos fatores, e mulheres que amamentaram também podem receber o diagnóstico da doença.
“É muito importante evitar uma interpretação equivocada. Mulheres que amamentaram podem desenvolver câncer de mama, assim como mulheres que nunca conseguiram amamentar podem jamais apresentar a doença. Estamos falando de redução de risco em nível populacional, e não de uma proteção individual absoluta”, esclarece a oncologista.
A especialista também destaca que nem todas as mulheres conseguem amamentar. Questões clínicas, emocionais, sociais e profissionais podem interferir nesse processo, e a associação encontrada nos estudos não deve ser transformada em fonte de culpa.
“A ciência busca compreender os mecanismos biológicos para desenvolver novas estratégias preventivas, inclusive para mulheres que não tiveram filhos ou não puderam amamentar. Esse conhecimento deve servir para ampliar possibilidades de prevenção, e não para responsabilizar as mulheres pelas suas escolhas ou circunstâncias.”
O que a descoberta pode representar para o futuro?
Compreender como a gestação e a amamentação modificam o sistema imunológico pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção do câncer de mama.
Entre as possibilidades investigadas pela ciência estão:
estratégias capazes de reproduzir determinados mecanismos de resposta imunológica;
abordagens preventivas para mulheres com maior risco genético;
novas formas de imunoterapia;
métodos que estimulem o sistema imunológico a reconhecer alterações celulares antes que elas evoluam para um tumor.
Essas aplicações ainda dependem de novos estudos e não significam que existam, atualmente, vacinas ou tratamentos capazes de reproduzir os efeitos da amamentação na prevenção do câncer de mama.
Para Luciana Landeiro, a principal contribuição das novas pesquisas está em ampliar a compreensão sobre a interação entre reprodução, imunidade e câncer.
“Cada avanço que entendemos sobre a biologia do câncer abre novas oportunidades de prevenção. Hoje conseguimos enxergar que a amamentação não beneficia apenas o bebê, mas também deixa um legado importante para a saúde da mulher. É uma descoberta que amplia nossa compreensão sobre como o sistema imunológico participa da prevenção do câncer de mama”, conclui.

