Redação Plenax – Flavia Andrade
Ataques, deslocamentos e dificuldades de acesso aos serviços de saúde aumentam as necessidades médicas e psicológicas da população palestina na Cisjordânia
A escalada da violência e as restrições de circulação na Cisjordânia têm ampliado as necessidades de saúde da população palestina, especialmente na região de Hebron. Segundo o Médicos Sem Fronteiras (MSF), ataques, insegurança e dificuldades para chegar aos serviços médicos têm agravado a situação, enquanto a organização enfrenta restrições para ampliar suas operações.
Mesmo diante das limitações, o MSF expandiu as atividades de suas clínicas móveis em Hebron e passou a oferecer também atendimento a pessoas afetadas psicologicamente pela violência.
De acordo com dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), pelo menos 77 palestinos foram mortos por forças israelenses e colonos na Cisjordânia em 2026, número que, segundo o levantamento apresentado pelo MSF, já supera o registrado durante todo o ano de 2025.
O impacto da violência também aparece nos atendimentos de saúde mental. Desde março, entre 17% e 38% das consultas psicológicas realizadas pelo MSF foram motivadas por episódios de violência intencional. No início do ano, esse percentual era de 13% ou menos.
Mais de 1,9 mil atendimentos de saúde mental
Entre janeiro e julho, as equipes do MSF realizaram mais de 1.930 consultas individuais de saúde mental e 436 sessões de terapia em grupo, utilizando clínicas móveis e uma unidade fixa.
No mesmo período, as equipes em Hebron receberam quase 170 alertas sobre incidentes, incluindo demolições de residências, ferimentos e ataques contra sistemas de água e saneamento.
Foram realizadas 27 respostas rápidas, que podem envolver atendimento psicológico ou distribuição de itens essenciais, como colchões e lonas.
A população também enfrenta dificuldades para acessar serviços médicos básicos. A combinação entre insegurança, postos de controle, bloqueios de estradas e dificuldades econômicas tem tornado mais difícil a chegada dos pacientes às unidades de saúde.
Segundo o Dr. Mohammad Haroub, coordenador médico adjunto do MSF em Hebron, a demanda pelos serviços da organização aumentou diante das dificuldades econômicas e da redução da capacidade de atendimento do sistema público.
A escassez de profissionais e medicamentos também agrava o cenário. Conforme o MSF, problemas relacionados ao pagamento de trabalhadores da saúde contribuíram para a redução das jornadas de trabalho e, em alguns casos, para o fechamento de clínicas.
Violência afeta rotina das comunidades
Os obstáculos à circulação também alteram o cotidiano dos moradores. A organização relata que pacientes precisam enfrentar desvios e dificuldades para percorrer distâncias relativamente curtas até os serviços médicos.
Moradores atendidos pelo MSF relatam medo constante diante de ataques e insegurança nas comunidades. As restrições também afetam pessoas que dependem de acompanhamento para doenças crônicas e enfrentam dificuldades para obter medicamentos.
MSF amplia clínicas móveis
Entre janeiro e julho, o MSF realizou 7.595 consultas ambulatoriais em Hebron, incluindo 1.910 relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.
Em junho e julho, após ampliar de cinco para oito o número de clínicas móveis, a organização realizou 1.450 e 1.397 consultas ambulatoriais, respectivamente. Segundo o MSF, foram os maiores números mensais registrados em 2026 e representam aumento de 26% em relação aos dois meses anteriores.
Entre os problemas de saúde mais atendidos estavam condições ginecológicas, doenças não transmissíveis, infecções das vias respiratórias superiores e conjuntivite.
A expansão ocorreu depois que a organização reduziu mais da metade das atividades das clínicas móveis no primeiro trimestre do ano devido ao cancelamento de registros pelas autoridades israelenses. A medida restringiu o acesso a áreas como o bairro H2, em Hebron, e comunidades das colinas de Masafer Yatta.
Para manter o atendimento às populações dessas áreas, o MSF passou a operar novas clínicas próximas aos limites da Área C, região sob controle exclusivo das forças israelenses.
Organização cobra acesso à saúde e proteção de civis
Apesar da adaptação das operações, as equipes continuam enfrentando dificuldades para chegar às comunidades atendidas.
Segundo Elisa Tamimi, especialista em assuntos humanitários do MSF em Hebron, as condições podem mudar rapidamente, com áreas inteiras sendo fechadas por períodos que variam de um dia a uma semana.
Diante do cenário, Joan Tubau, coordenador-geral do MSF na Palestina, afirma que as autoridades israelenses devem interromper medidas que, segundo a organização, forçam palestinos a deixar suas casas, além de garantir acesso à assistência humanitária e aos serviços de saúde e proteger os civis.
Para os moradores atendidos pela organização, a expectativa é recuperar condições básicas de segurança e dignidade, com liberdade para circular e acesso à saúde, educação e outros serviços essenciais.

