Redação Plenax – Flavia Andrade
Levantamento reúne 81,4 mil registros entre 2020 e 2026 e aponta demora no início do tratamento; no Centro-Oeste, proporção de casos nos estágios III e IV chega a 92,4%
Quase nove em cada dez registros de câncer de pulmão com estadiamento conhecido no Sistema Único de Saúde (SUS) correspondem a casos diagnosticados em estágio avançado. Entre 2020 e 2026, foram identificados 50.098 registros com informação sobre o estágio da doença, dos quais 44.042, ou 87,9%, estavam nos estágios III ou IV.
Os dados, extraídos do Painel-Oncologia do Ministério da Saúde, integram o alerta do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) durante o Agosto Branco, mês de conscientização sobre o câncer de pulmão.
Somente os casos em estágio IV, quando a doença já se espalhou para outras partes do organismo, somaram 32.162 registros, equivalentes a 64,2% dos pacientes com estadiamento conhecido.
Ao todo, o painel contabilizou 81.421 registros de câncer de pulmão no período analisado. Em 21.109 casos, o estadiamento aparece como ignorado e, em outros 10.214, como não aplicável.
Os números devem ser considerados dentro das limitações da base. O Painel-Oncologia é atualizado continuamente e os registros mais recentes ainda podem estar em processo de alimentação e consolidação. O sistema também está sujeito a campos sem preenchimento, informações ignoradas ou não aplicáveis e diferenças na completude dos registros.
Centro-Oeste concentra maior proporção de casos avançados
A proporção de diagnósticos nos estágios III e IV é elevada em todas as regiões do país, mas o Centro-Oeste apresenta o maior percentual entre os registros com estadiamento conhecido.
Na região, 92,4% dos casos estavam nos estágios III ou IV. No Norte e no Nordeste, o índice foi de 89,7%; no Sudeste, 88,4%; e no Sul, 84,9%.
Considerando apenas os casos em estágio IV, o Centro-Oeste também apresentou o maior percentual, com 72,8%. Na sequência aparecem Norte, com 66,3%; Sudeste, com 65%; Nordeste, com 64,4%; e Sul, com 60,8%.
A elevada proporção de doença avançada é semelhante entre homens e mulheres. Entre os homens com estadiamento conhecido, 88,8% estavam nos estágios III ou IV. Entre as mulheres, o percentual foi de 86,9%.
Para o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, presidente do GBOT, a discussão sobre acesso precisa considerar toda a trajetória do paciente.
“Quando falamos em acesso, estamos falando de toda a jornada do paciente. Isso começa na informação e na prevenção, passa pelo diagnóstico em tempo oportuno, pela realização dos exames necessários, pela cirurgia, pela radioterapia, pelos testes moleculares e chega ao tratamento mais adequado para cada pessoa. Se qualquer uma dessas etapas falha, o resultado também é comprometido”, afirma.
Um em cada três espera mais de 60 dias pelo tratamento
A demora também aparece no intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento. Dos 60.312 registros que possuem informação sobre esse período, 20.607, ou 34,2%, indicam espera superior a 60 dias.
Outros 15.065 pacientes, correspondentes a 25%, iniciaram o tratamento entre 31 e 60 dias. Já 24.640, ou 40,9%, começaram em até 30 dias.
Dessa forma, 59,1% dos registros com informação sobre o intervalo indicam início do tratamento após os primeiros 30 dias.
A demora também foi observada entre pacientes diagnosticados em fases iniciais. Dos 2.012 registros de estágio I, 1.025, ou 50,9%, tiveram início do tratamento após mais de 60 dias. No estágio II, foram 1.385 de 2.544 registros, o equivalente a 54,4%.
Os dados mostram que identificar o tumor em uma fase inicial representa apenas uma parte do desafio. A continuidade da investigação e o acesso ao tratamento também precisam ocorrer em tempo adequado.
Tabagismo é principal fator de risco, mas não é o único
O tabagismo continua sendo responsável pela maioria dos casos de câncer de pulmão, mas o GBOT pretende ampliar, durante o Agosto Branco, a discussão sobre outros fatores de risco.
Entre eles estão exposições ocupacionais, poluição ambiental, fumaça de combustíveis utilizados no preparo de alimentos, radônio e exposição passiva à fumaça do cigarro.
Os dados também apontam para uma participação crescente das mulheres entre os registros analisados. Dos 81.421 casos contabilizados entre 2020 e 2026, 39.417, ou 48,4%, eram de mulheres. Entre os homens, foram 42.004 registros, correspondentes a 51,6%.
Segundo a oncologista clínica Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT, ampliar o acesso à informação é parte da estratégia de enfrentamento da doença.
“Durante muitos anos o câncer de pulmão ficou restrito à mensagem do combate ao tabagismo, que continua sendo fundamental. Mas hoje sabemos que existem outros fatores de risco importantes, especialmente para algumas populações”, afirma.
Diagnóstico precoce depende de uma linha de cuidado estruturada
A ampliação do acesso ao diagnóstico precoce é outro ponto defendido pelo GBOT. A tomografia computadorizada de baixa dose é apontada como método capaz de reduzir a mortalidade entre pessoas com alto risco de desenvolver câncer de pulmão.
O início de um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) para avaliar a implementação de um programa de rastreamento no SUS é considerado pelo grupo um passo importante. Para a entidade, entretanto, a estratégia precisa estar integrada a uma estrutura que permita investigação, confirmação diagnóstica e tratamento em tempo adequado.
“O rastreamento não pode ser visto apenas como a realização de um exame. Ele precisa fazer parte de uma linha de cuidado organizada, que garanta o encaminhamento rápido para investigação, confirmação diagnóstica e início do tratamento quando necessário. É isso que realmente tem potencial para reduzir a mortalidade por câncer de pulmão”, afirma Samira.
A especialista ressalta que as barreiras podem surgir desde o momento da suspeita clínica, passando pela realização dos exames de imagem e confirmação anatomopatológica até o encaminhamento para um especialista.
“Quando falamos em acesso ao diagnóstico, não estamos nos referindo apenas aos testes moleculares. Estamos falando do tempo entre o surgimento dos sintomas, a suspeita clínica, a realização dos exames, a confirmação do diagnóstico e o encaminhamento ao tratamento. Toda essa jornada influencia diretamente o prognóstico do paciente”, acrescenta.
Acesso a testes moleculares ainda é desigual
As diferenças também aparecem após a confirmação do câncer. Estudos publicados pelo GBOT na revista científica JCO Global Oncology apontam desigualdades entre pacientes atendidos pelo SUS e pela saúde suplementar no acesso a exames moleculares e terapias-alvo.
Um dos estudos mostrou que 43,9% dos oncologistas que atuam no SUS relataram acesso regular aos exames necessários para identificar alterações moleculares como ALK. Na saúde suplementar, o índice foi de 93,9%.
Outro estudo acompanhou 101 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK. Na primeira linha de tratamento, 22,2% dos pacientes do SUS receberam terapia-alvo, contra 53,9% na saúde suplementar.
A diferença também apareceu na sobrevida. Três anos após o diagnóstico, 61,4% dos pacientes atendidos pelo SUS estavam vivos, ante 87,2% na saúde suplementar.
Segundo Samira Mascarenhas, os resultados mostram que os avanços da medicina de precisão ainda chegam de maneira desigual aos pacientes.
“Hoje dispomos de tratamentos capazes de controlar a doença por mais tempo e oferecer melhor qualidade de vida para muitos pacientes. Mas esses benefícios dependem de uma sequência de etapas, que incluem o paciente chegar ao especialista, realizar os exames adequados, identificar a alteração molecular e, finalmente, ter acesso ao medicamento recomendado”, afirma.
Tratamento varia conforme estágio e características do tumor
Entre os 81.421 registros analisados no Painel-Oncologia, foram contabilizados 42.149 registros de quimioterapia, 10.214 de cirurgia, 7.439 de radioterapia e 510 de quimioterapia e radioterapia combinadas. Outros 21.109 registros aparecem sem informação de tratamento.
A cirurgia corresponde a 12,5% do total de registros, mas esse percentual não pode ser interpretado isoladamente como indicador de acesso, já que a indicação cirúrgica depende do estágio da doença, das características do tumor e das condições clínicas do paciente.
De acordo com o INCA, a cirurgia, isoladamente ou combinada a outros tratamentos, pode ser indicada em até 30% dos casos de câncer de pulmão ao longo da jornada do paciente no SUS.
Atualmente, o tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo ou combinações dessas estratégias, de acordo com o estágio e as características biológicas do tumor.
A oncologia de precisão também ampliou as possibilidades terapêuticas para pacientes que apresentam determinadas alterações moleculares. Entre os genes que podem ser avaliados estão EGFR, ALK, ROS1, BRAF, MET, RET, KRAS e NTRK, entre outros.
Para o GBOT, garantir acesso ao tratamento significa assegurar não apenas a disponibilidade das terapias, mas também dos exames necessários para determinar qual estratégia é mais adequada para cada paciente.
Os dados do Painel-Oncologia reforçam a dimensão do desafio: 87,9% dos casos com estadiamento conhecido estavam nos estágios III ou IV, 34,2% dos registros com informação sobre o intervalo até o tratamento indicavam espera superior a 60 dias e estudos apontam diferença de 50 pontos percentuais no acesso regular a testes moleculares entre oncologistas do SUS e da saúde suplementar.
Para especialistas, reduzir essas barreiras exige uma abordagem que envolva prevenção, diagnóstico precoce, rapidez na confirmação da doença, acesso a exames e tratamento adequado ao perfil de cada paciente.

