Redação Plenax – Flavia Andrade
Mutação inédita na espécie foi identificada no Pantanal e no Cerrado e pode ajudar a compreender os impactos do isolamento genético sobre populações ameaçadas
Pesquisadores do Onçafari, em parceria com um pesquisador da Embrapa Pantanal, registraram os primeiros casos de melanismo em cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus). A descoberta foi descrita em uma nota científica publicada na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos e amplia o conhecimento sobre alterações de pigmentação em cervídeos da América do Sul.
O melanismo é uma mutação genética associada ao excesso de melanina, responsável pela coloração mais escura da pelagem. Até então, na espécie, havia registros apenas de albinismo e leucismo.
Os novos casos foram identificados em dois biomas: no Pantanal, na base de operações do Onçafari na Caiman Pantanal, e no Cerrado, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (PNGSV).
Primeiro registro no Pantanal
O Pantanal concentra cerca de 88% da população brasileira de cervos-do-pantanal, estimada em aproximadamente 40 mil indivíduos.
Apesar de mais de quatro décadas de pesquisas e levantamentos aéreos realizados na região, nunca havia sido identificado um cervo-do-pantanal com melanismo. O animal observado pela equipe do Onçafari é uma fêmea adulta e representa o primeiro registro publicado da mutação no bioma.
No Cerrado, entretanto, a situação encontrada pelos pesquisadores foi diferente. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, 66,7% das observações diretas realizadas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas envolveram indivíduos melânicos. Foram identificados pelo menos dois machos distintos, e a equipe registrou posteriormente também um macho juvenil com a mesma característica.
Isolamento pode influenciar ocorrência da mutação
O cervo-do-pantanal é considerado criticamente ameaçado de extinção no Cerrado, onde suas populações estão mais reduzidas e fragmentadas.
Para Edu Fragoso, coordenador da base do Onçafari no Parque Nacional Grande Sertão Veredas e coautor do estudo, a frequência elevada de animais melânicos na região merece atenção.
“Estes registros no Cerrado servem de alerta para a conservação da espécie no bioma, pois essa mutação pode indicar que a saúde genética da população está em risco”, afirma.
Segundo o pesquisador, o isolamento das populações pode estar relacionado à maior frequência de indivíduos com melanismo. A degradação das áreas no entorno do parque e a pressão de caça contribuem para esse cenário.
Os pesquisadores apontam que deriva genética, isolamento populacional e endogamia podem estar entre os fatores associados à alta proporção de indivíduos melânicos observada no Cerrado. Novos estudos ainda são necessários para compreender a frequência da mutação e seus possíveis efeitos sobre a população.
Possíveis impactos para os animais
A publicação também destaca que estudos recentes, ainda em estágio inicial, apontam possíveis efeitos negativos relacionados à alta pigmentação em algumas espécies.
Entre eles estão menores taxas de sobrevivência e reprodução, maior exposição à predação por grandes carnívoros, como a onça-pintada, maior vulnerabilidade a doenças e dificuldades de termorregulação.
Os pesquisadores ressaltam, porém, a necessidade de aprofundar as investigações antes de estabelecer relações definitivas entre o melanismo e esses impactos.
Monitoramento ajuda a identificar mudanças
O registro reforça a importância do monitoramento de longo prazo para acompanhar alterações ecológicas e genéticas em populações de animais ameaçados.
A frente de Ciência do Onçafari já reúne cerca de 40 artigos científicos publicados e mantém mais de 300 armadilhas fotográficas para monitorar a fauna brasileira.
A identificação dos cervos melânicos nos dois biomas demonstra como o acompanhamento contínuo pode revelar características que permanecem desconhecidas mesmo em espécies pesquisadas há décadas. Para os pesquisadores, os novos dados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias de conservação mais direcionadas ao cervo-do-pantanal.

