Redação Plenax – Flavia Andrade
Atividade física regular está associada à redução do risco de alguns tipos de câncer e pode trazer benefícios também após o diagnóstico
A prática regular de atividade física vai além do condicionamento físico. Caminhar, pedalar, nadar, dançar, fazer musculação ou simplesmente passar menos tempo sentado podem fazer parte de uma rotina de prevenção e contribuir para a redução do risco de alguns tipos de câncer.
Entre os tumores que apresentam evidências mais consistentes dessa associação estão os de mama, endométrio e cólon. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a atividade física pode contribuir para o equilíbrio hormonal, o fortalecimento das defesas do organismo, a redução do tempo de trânsito intestinal e a manutenção do peso corporal.
O exercício também está relacionado à prevenção de outras doenças crônicas, como doenças cardiovasculares e diabetes, além de benefícios para a saúde cerebral.
“Não é estética nem performance, mas qualidade de vida e prevenção das doenças que mais causam mortes”, avalia Fernanda Catena, médica ortopedista com formação em Nutrologia Esportiva.
O que as pesquisas mostram
Um estudo publicado em 2016 no JAMA Internal Medicine, com 1,44 milhão de adultos, encontrou menor incidência de 13 dos 26 tipos de câncer avaliados entre os participantes que apresentavam níveis mais elevados de atividade física no tempo livre. Entre eles estava o câncer de mama, com redução relativa de 10% na comparação entre os grupos mais e menos ativos.
Outra revisão sistemática, publicada em 2019 e baseada em 45 relatórios que reuniram centenas de estudos epidemiológicos, encontrou evidências fortes de associação entre maior atividade física e menor risco de câncer de bexiga, mama, cólon, endométrio, adenocarcinoma de esôfago, rim e estômago. As reduções relativas ficaram, em geral, entre 10% e 20%.
Esses resultados, porém, mostram associações. Os estudos não permitem afirmar que o exercício, isoladamente, seja responsável pelas diferenças encontradas. O risco individual também depende de fatores como idade, genética, histórico familiar, tabagismo, consumo de álcool, excesso de gordura corporal e exposições ambientais.
Por isso, a atividade física não elimina o risco de câncer e não substitui exames de rastreamento, investigação de sintomas ou tratamento.
Exercício também pode ajudar depois do diagnóstico
Os benefícios da atividade física não se limitam à prevenção. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 no JAMA Network Open avaliou 17.141 pessoas diagnosticadas com câncer de bexiga, endométrio, rim, pulmão, cavidade oral, ovário ou reto.
Níveis mais elevados de atividade física moderada ou vigorosa depois do diagnóstico foram associados a menor mortalidade por câncer entre pessoas com tumores de bexiga, endométrio, pulmão e ovário.
Entre pacientes com câncer de pulmão e reto, começar a cumprir as recomendações de atividade física após o diagnóstico também foi associado a menor mortalidade, inclusive entre aqueles que anteriormente eram inativos.
Como o estudo foi observacional, os resultados não comprovam que o exercício tenha sido o único responsável pelas diferenças observadas. Ainda assim, acrescentam evidências sobre a relação entre atividade física e saúde após o diagnóstico.
A prática também pode contribuir para a chamada longevidade estrutural, conceito que considera a preservação dos músculos, ossos, força e mobilidade como parte importante do envelhecimento com autonomia.
“Então, o exercício entra como um componente essencial da longevidade estrutural”, afirma Fernanda.
Para quem teve câncer, entretanto, a atividade física deve integrar o plano de cuidados sem substituir cirurgia, medicamentos, quimioterapia ou radioterapia. Durante e após o tratamento, intensidade, frequência e tipo de exercício precisam ser adequados à condição clínica e discutidos com a equipe responsável.
Como começar
Não é necessário começar pela academia. Caminhar até o trabalho, subir escadas, passear com o cachorro, pedalar, dançar, nadar ou praticar atividades ao ar livre também são formas de se movimentar.
Para quem está há muito tempo sem praticar exercícios, a recomendação é começar com períodos menores e aumentar gradualmente a frequência e a intensidade.
Como referência, a Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos façam entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa. Exercícios para fortalecimento dos principais grupos musculares devem ser realizados em pelo menos dois dias da semana.
Antes de montar uma rotina, também é importante considerar o que a pessoa deseja continuar fazendo ao longo da vida. Viajar, subir escadas, carregar as próprias compras ou praticar determinado esporte são exemplos de atividades que ajudam a identificar quais capacidades físicas precisam ser preservadas.
O foco, portanto, não deve estar apenas na perda de gordura ou nas mudanças percebidas no espelho. Manter músculos e ossos fortes contribui para preservar força, mobilidade e autonomia.
Pessoas com doenças crônicas, limitações de movimento, dor ou mal-estar podem precisar adaptar os exercícios com orientação profissional. O mesmo vale para quem está em tratamento ou se recuperando de um câncer.
A atividade física não impede o surgimento do câncer, mas pode fazer parte das estratégias de prevenção e contribuir para uma vida com mais força, mobilidade e autonomia.

