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Morte de menino autista amplia debate sobre segurança, autismo grave e necessidade de políticas públicas específicas

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Caso de criança de cinco anos no Paraná reacende discussões sobre prevenção de acidentes, suporte às famílias e desafios enfrentados por pessoas com maior comprometimento funcional dentro do espectro autista

A morte de João Gabriel Ferreira dos Santos, de apenas cinco anos, encontrada nesta terça-feira (28) em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), voltou a colocar em evidência os desafios enfrentados por crianças com autismo de maior comprometimento funcional e a necessidade de ampliar as políticas públicas voltadas à proteção desse público.

O menino, que era autista não verbal, estava desaparecido desde o último domingo. O corpo foi localizado em uma área com água acumulada sobre um tanque de rejeitos de suínos, a aproximadamente 100 metros da casa da família. A Polícia Civil investiga as circunstâncias da ocorrência, e a principal linha de investigação aponta para uma queda acidental.

O episódio também reacendeu discussões entre especialistas sobre os riscos enfrentados por crianças que necessitam de supervisão permanente, especialmente aquelas com limitações severas de comunicação e histórico de comportamento de fuga.

Especialista alerta para invisibilidade do autismo de maior comprometimento

Para a médica e pesquisadora brasileira Gabriela Guimarães, referência em estudos sobre transtorno do espectro autista (TEA), o caso evidencia uma realidade que, segundo ela, ainda recebe pouca atenção no debate público.

A especialista ressalta que não existe qualquer evidência que permita relacionar diretamente a ampliação dos diagnósticos de autismo ao caso de João Gabriel. No entanto, defende que situações como essa reforçam a importância de reconhecer os diferentes perfis clínicos existentes dentro do espectro.

Segundo Guimarães, quando pessoas com necessidades muito distintas passam a ser tratadas sob uma mesma classificação, aquelas que dependem de cuidados permanentes podem acabar perdendo espaço nas prioridades de pesquisa científica, financiamento e elaboração de políticas públicas.

Ela argumenta que crianças não verbais, com deficiência intelectual, comportamento de fuga, episódios de autoagressão e necessidade contínua de supervisão apresentam demandas muito diferentes das pessoas com formas mais leves do transtorno, exigindo abordagens específicas.

Artigo científico discute expansão dos diagnósticos

As observações da pesquisadora acompanham a divulgação de seu artigo científico Autism Prevalence and the Limits of Diagnostic Expansion: A Perspective on Diagnostic Validity, Adult Assessment, and Phenotypic Stratification, publicado em julho na revista internacional Frontiers in Psychiatry.

No estudo, a autora reconhece que a ampliação do acesso ao diagnóstico foi importante para corrigir anos de subdiagnóstico do transtorno. Entretanto, alerta para o que define como “diluição diagnóstica”, fenômeno em que pessoas com níveis muito distintos de comprometimento passam a integrar a mesma classificação clínica.

Segundo o trabalho, essa heterogeneidade pode dificultar a identificação de biomarcadores, causas biológicas e estratégias terapêuticas, além de comprometer a formulação de políticas públicas direcionadas às pessoas que apresentam maior dependência funcional.

Entre as propostas apresentadas está a adoção de critérios mais detalhados para a estratificação dos pacientes em pesquisas, considerando fatores como desenvolvimento da linguagem, funcionamento cognitivo, deficiência intelectual, autonomia e necessidade de suporte.

A pesquisadora enfatiza que o artigo não analisou casos de mortes, acidentes ou desaparecimentos e não estabelece qualquer relação de causa e efeito entre a ampliação diagnóstica e fatalidades envolvendo pessoas autistas.

Comportamento de fuga exige atenção permanente

Outro ponto destacado pela especialista é o chamado comportamento de fuga, conhecido internacionalmente como elopement, considerado um dos principais fatores de risco para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.

Pesquisas internacionais apontam que quase metade das famílias de crianças autistas relata pelo menos um episódio de fuga após os quatro anos de idade. Nos casos em que a criança permanece desaparecida por mais tempo, aumentam significativamente os riscos de afogamentos, atropelamentos e outros acidentes graves.

De acordo com Guimarães, esse comportamento não deve ser interpretado como desobediência ou indisciplina.

Segundo ela, trata-se de uma manifestação relacionada às dificuldades de comunicação, compreensão dos perigos e autorregulação presentes em parte das pessoas com autismo grave, podendo resultar em situações fatais em poucos minutos.

Debate internacional sobre o “autismo profundo”

Nos Estados Unidos, especialistas têm discutido o reconhecimento da categoria denominada “autismo profundo”, destinada a pessoas com comunicação verbal mínima, deficiência intelectual significativa e necessidade permanente de acompanhamento.

Na avaliação de Gabriela Guimarães, iniciativas desse tipo podem favorecer o direcionamento de investimentos específicos para pesquisa, assistência especializada e estratégias de prevenção de acidentes.

Ela defende que o Brasil avance na criação de protocolos nacionais voltados à prevenção de fugas, capacitação de equipes de emergência, fortalecimento do suporte às famílias e incentivo a estudos direcionados às pessoas com maior comprometimento funcional.

Para a pesquisadora, inclusão e proteção precisam caminhar juntas. Segundo ela, garantir segurança, assistência e acesso a cuidados especializados é fundamental para preservar a vida e assegurar direitos às pessoas com autismo grave e às suas famílias.

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