Redação Plenax – Flavia Andrade
Vírus pode ser transmitido por contato íntimo, inclusive sexo oral, e está associado a cânceres de orofaringe; especialistas defendem imunização de meninos e meninas
Durante décadas, o câncer de cabeça e pescoço esteve fortemente associado ao tabagismo e ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Embora esses fatores continuem entre os principais riscos para a doença, o perfil de parte dos pacientes vem mudando com o aumento da participação do Papilomavírus Humano (HPV) em tumores da orofaringe, região que inclui as amígdalas e a base da língua.
O HPV é uma infecção sexualmente transmissível bastante comum e pode ser transmitido por contato íntimo, inclusive durante o sexo oral. Na maioria das pessoas, o organismo elimina a infecção espontaneamente. Em alguns casos, porém, o vírus persiste por anos e pode contribuir para o desenvolvimento de alterações celulares associadas a determinados tipos de câncer.
De acordo com a estimativa 2026-2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar cerca de 17,2 mil novos casos de câncer da cavidade oral por ano, sendo aproximadamente 12,3 mil em homens e 4,9 mil em mulheres. Embora a incidência continue maior entre os homens, especialistas alertam para a transformação do perfil de parte dos pacientes, especialmente nos tumores de orofaringe relacionados ao HPV.
HPV também pode estar presente em pessoas que nunca fumaram
A associação entre o HPV e os cânceres de cabeça e pescoço vem sendo estudada há anos. Diferentemente dos tumores tradicionalmente relacionados ao tabaco e ao álcool, os cânceres de orofaringe associados ao vírus podem aparecer também em pessoas que não apresentam esses fatores de risco.
“Ainda atendemos muitos pacientes cujo câncer está relacionado ao cigarro e ao álcool, mas percebemos um aumento dos tumores associados ao HPV, inclusive em pessoas que nunca fumaram. Isso mostra que precisamos ampliar o conhecimento da população sobre os diferentes fatores de risco e sobre as formas de prevenção disponíveis”, explica a oncologista clínica Débora Curi, integrante do Núcleo de Excelência em Câncer de Cabeça e Pescoço do Grupo SOnHe.
O fato de uma pessoa ter tido contato com HPV não significa, entretanto, que ela desenvolverá câncer. A infecção é comum e geralmente desaparece sem provocar problemas. O risco está relacionado principalmente à persistência de determinados tipos do vírus e à ocorrência de alterações celulares ao longo do tempo.
Sexo oral não causa câncer diretamente
A relação entre sexo oral e câncer exige cuidado para evitar interpretações equivocadas. O contato sexual pode ser uma via de transmissão do HPV, mas o sexo oral, por si só, não provoca câncer.
“É importante esclarecer que o sexo oral, por si só, não provoca câncer. O que pode acontecer é a transmissão do HPV durante esse contato. Quando essa infecção persiste ao longo do tempo, ela pode contribuir para o desenvolvimento de alguns tumores de cabeça e pescoço”, explica o oncologista clínico David Pinheiro Cunha, também integrante do Núcleo de Excelência em Câncer de Cabeça e Pescoço do Grupo SOnHe.
Segundo o especialista, a informação também ajuda a combater o estigma associado à infecção pelo vírus e a estimular medidas preventivas.
Vacinação protege contra diferentes tipos de câncer
Embora seja amplamente conhecido pela relação com o câncer do colo do útero, o HPV também está associado a tumores de orofaringe, ânus, pênis, vulva e vagina.
Por isso, a vacinação é uma das principais estratégias de prevenção. No Brasil, o imunizante contra o HPV está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única, conforme o Programa Nacional de Imunizações.
Pessoas imunossuprimidas e outros grupos específicos possuem recomendações próprias e podem necessitar de esquemas diferentes. Para quem está fora da faixa etária de rotina e não recebeu a vacina, a indicação deve ser avaliada conforme idade, histórico vacinal e condições individuais.
A vacina não trata uma infecção por HPV já existente, mas pode proteger contra tipos do vírus aos quais a pessoa ainda não foi exposta.
“Quando falamos em vacina contra o HPV, muitas pessoas ainda associam o imunizante apenas ao câncer do colo do útero. Mas essa proteção também está relacionada à prevenção de outros tumores, inclusive os de cabeça e pescoço. Vacinar meninos e meninas é uma forma de reduzir a circulação do vírus e proteger as próximas gerações”, reforça Débora Curi.
Sinais persistentes devem ser investigados
O câncer de cabeça e pescoço pode apresentar diferentes manifestações, e a presença de um desses sintomas não significa necessariamente que exista um tumor. No entanto, sinais persistentes devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Entre os sintomas que merecem atenção estão:
ferida na boca que não cicatriza;
rouquidão persistente;
dor ou dificuldade para engolir;
caroço no pescoço;
dor de garganta contínua;
sangramento na boca ou garganta;
sensação de algo preso ao engolir.
Os especialistas recomendam que sintomas que persistam por mais de duas semanas sejam investigados.
Para David Pinheiro Cunha, ampliar o acesso à informação é uma das estratégias para reduzir o impacto desses tumores.
“Estamos falando de uma doença que, em parte dos casos, pode ser prevenida. A vacinação, associada ao acompanhamento médico e à atenção aos sinais de alerta, representa uma oportunidade concreta de reduzir o impacto desses tumores no futuro”, afirma.

