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Festa de São Benedito celebra 107 anos de tradição e resistência quilombola em Campo Grande

Foto: Divulgação

Redação Plenax – Flavia Andrade

Entre terços, tambores, futebol, samba e memória ancestral, a Comunidade Quilombola Tia Eva, em Campo Grande, mantém viva uma das mais tradicionais manifestações culturais e religiosas de Mato Grosso do Sul. A Festa de São Benedito chega à sua 107ª edição reafirmando a força da fé, da identidade negra e da resistência quilombola construída ao longo de mais de um século.

A celebração acontece entre os dias 8 e 17 de maio, na Rua Eva Maria de Jesus, no Jardim Seminário, reunindo moradores, devotos, pesquisadores, representantes do movimento negro e visitantes de diversas regiões do Estado.

A festa nasceu a partir de uma promessa feita por Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, mulher negra considerada fundadora da comunidade quilombola que hoje leva seu nome. A devoção atravessou gerações e transformou-se em símbolo de pertencimento, tradição e continuidade histórica da população negra em Mato Grosso do Sul.

Neste ano, a festividade conta com apoio do Grupo Trabalho e Estudos Zumbi (Grupo TEZ), por meio do projeto “Festividades Religiosas: Saberes e Ancestralidade”, iniciativa voltada ao fortalecimento das tradições de comunidades negras e povos tradicionais.

Descendente de Tia Eva e uma das organizadoras da celebração, Vânia Duarte destaca que manter a festa ativa representa honrar a história da matriarca da comunidade.

“Manter viva a realização da Festa de São Benedito é continuar com a promessa de Tia Eva. É honrar o compromisso que ela fez há mais de um século, de dar continuidade a essa devoção”, afirma.

Segundo Vânia, a tradição começou antes mesmo da construção da igreja. Durante a viagem para a região onde hoje fica Campo Grande, Tia Eva teria alcançado uma graça atribuída a São Benedito. Ao chegar ao então bairro Seminário, construiu uma pequena igreja de sapé e pau a pique, passando a reunir moradores e trabalhadores rurais para as primeiras celebrações.

A tradição comunitária permanece viva até hoje, principalmente por meio do almoço gratuito servido no encerramento da festa — um dos maiores símbolos de união e solidariedade deixados por Tia Eva.

“Ela dizia que, quando morresse, os descendentes precisariam continuar realizando a festa dessa forma. Então fazemos isso em respeito à nossa matriarca. É uma confraternização aberta a quem quiser chegar aqui na comunidade”, ressalta.

Além das celebrações religiosas, a programação reúne atividades culturais e esportivas, refletindo a diversidade da própria comunidade quilombola. Durante os dez dias de festa, o público poderá acompanhar missas, procissões, rodas de samba, shows de pagode e sertanejo, bailes, torneios de futebol society, corrida de rua, apresentações culturais e exibições de documentários.

“A nossa vivência é diversa. O futebol sempre esteve muito presente aqui, assim como a música, o samba, o pagode, o baile e a dança. Tudo isso faz parte da nossa identidade e da nossa forma de existir enquanto comunidade quilombola”, explica Vânia.

Entre os momentos mais aguardados da programação estão o tradicional levantamento do mastro de São Benedito, acompanhado da fogueira, e a procissão de encerramento pelas ruas da comunidade.

A Igreja de São Benedito, inicialmente construída em barro e posteriormente em alvenaria em 1919, tornou-se um dos principais símbolos da presença negra na história de Campo Grande. Tombada como patrimônio cultural municipal e estadual desde 1998, a igreja também conquista reconhecimento nacional em 2026.

Para Vânia, o local representa mais do que religiosidade.

“É cultura, é história, é identidade e pertencimento. Não é só um patrimônio dos descendentes de Tia Eva, é um patrimônio da cidade, do Estado e agora do Brasil”, afirma.

A presidenta do Grupo TEZ, Bartolina Ramalho Catanante, conhecida como professora Bartô, destaca que apoiar a festa significa fortalecer a memória ancestral da população negra sul-mato-grossense.

“Quando o TEZ apoia uma festa como a de São Benedito, a gente está apoiando muito mais do que um evento religioso. Estamos fortalecendo um patrimônio vivo da cultura negra, uma memória ancestral que atravessa gerações e permanece viva dentro da comunidade”, pontua.

Ela também ressalta que as festividades carregam conhecimentos transmitidos entre gerações e fundamentais para a preservação da identidade quilombola.

“Essas festas ensinam sobre solidariedade, espiritualidade, resistência e identidade. O projeto Festividades existe para garantir que essas tradições continuem sendo valorizadas e reconhecidas como parte fundamental da cultura sul-mato-grossense”, completa.

Ao longo de mais de um século, a Festa de São Benedito consolidou-se como um dos maiores símbolos da resistência cultural negra em Mato Grosso do Sul, mantendo viva a herança deixada por Tia Eva: a fé como elo comunitário, a cultura como resistência e a memória como continuidade histórica.

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