Redação Plenax
A recuperação de áreas degradadas ganhou protagonismo na política agroambiental brasileira e já movimenta o setor produtivo. Com a meta de recuperar até 40 milhões de hectares em uma década, o Programa Caminho Verde Brasil, lançado pelo Governo Federal em 2025, agora passa por análise técnica da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, que apresentou um conjunto de recomendações para aprimorar a iniciativa.
Elaborado pelo Grupo de Trabalho de Terra (GT de Terra), o documento avalia avanços e entraves do programa e propõe ajustes para ampliar o acesso de produtores a crédito, assistência técnica e financiamento climático — pontos considerados estratégicos para garantir efetividade no campo.
Segundo a presidente da entidade, Ana Doralina Menezes, um dos principais méritos do Caminho Verde é alinhar produtividade e sustentabilidade sem a necessidade de abertura de novas áreas. “A recuperação de pastagens se consolida como eixo estratégico para melhorar o desempenho produtivo, reduzir emissões de gases de efeito estufa e diminuir a pressão por expansão territorial”, afirma.
O material também destaca a convergência do programa com políticas já existentes, como o Plano ABC+, além do potencial de estruturar novos instrumentos financeiros com participação do setor público e privado. Entre eles, ganham relevância mecanismos ligados ao mercado de carbono e práticas de insetting, que podem criar novas fontes de financiamento ao longo da cadeia produtiva.
Nesse contexto, a conexão entre produtores e compradores surge como oportunidade para viabilizar investimentos e ampliar o fluxo de recursos. A proposta é alinhar essas iniciativas a metas de descarbonização, permitindo ganhos compartilhados entre os diferentes elos da pecuária.
Entraves e riscos na execução
Apesar dos avanços conceituais, o documento aponta desafios que podem comprometer a implementação. Entre os principais está a falta de clareza operacional e de critérios técnicos para conceitos centrais, como “pastagens degradadas” e “boas práticas agropecuárias sustentáveis”, o que pode gerar insegurança e dificultar a mensuração de resultados.
Outro ponto crítico é o risco de concentração dos benefícios em grandes propriedades, limitando a participação de pequenos e médios produtores. Também pesam dúvidas sobre regras de adesão, exigências de permanência no programa e a disponibilidade de assistência técnica.
Para o vice-presidente da Mesa, Lisandro Inakake de Souza, a ausência de parâmetros claros pode reduzir o alcance da política. “É fundamental garantir critérios objetivos, instrumentos acessíveis e segurança para o produtor. Sem isso, o programa terá dificuldade para atingir todo o seu potencial”, avalia.
A capacidade operacional também entra no radar, especialmente em relação à oferta de insumos, estrutura de assistência técnica e sistemas de monitoramento. Outro desafio apontado é a falta de diretrizes consolidadas para o reconhecimento das remoções de carbono no solo, fator que pode limitar o engajamento do setor privado.
Caminhos para fortalecer a política
Diante desse cenário, a Mesa propõe uma série de diretrizes para tornar o Caminho Verde mais eficiente e inclusivo. Entre elas estão a integração com políticas públicas já existentes, o fortalecimento da assistência técnica e a ampliação do acesso ao crédito com condições adequadas aos diferentes perfis de produtores.
A inclusão de pequenos e médios pecuaristas aparece como prioridade, com a recomendação de revisão de critérios que possam restringir sua participação. O documento também reforça a importância de avançar na estruturação de mecanismos de financiamento climático e estimular a cooperação entre produtores e compradores.
No campo da governança, a proposta é fortalecer espaços permanentes de diálogo entre setor produtivo, governo e sociedade civil, garantindo transparência e evolução contínua da política.
Como próximo passo, o GT de Terra pretende lançar um guia técnico voltado aos produtores, com orientações práticas para acesso a crédito e adesão ao programa. A iniciativa busca facilitar a implementação no campo e ampliar o alcance das ações.
Ao consolidar essas recomendações, a entidade aposta em aproximar o Caminho Verde da realidade do produtor, com foco em escala, previsibilidade e acesso elementos considerados essenciais para que a recuperação de pastagens avance de forma consistente no Brasil.
Recuperação de pastagens entra no centro da agenda e setor propõe ajustes para ampliar alcance do Caminho Verde

