Redação Plenax – Flavia Andrade
Ao completar três anos, o conflito no Sudão segue se intensificando, com aumento da violência contra civis, destruição de infraestrutura essencial e colapso dos serviços de saúde. O alerta é da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), que denuncia falhas graves na resposta internacional diante da crise.
O confronto entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), aliado à atuação de grupos armados, tem provocado a desestruturação de serviços básicos como saúde, alimentação, proteção e segurança.
Dados de 2025 evidenciam a gravidade da situação. As equipes da MSF atenderam mais de 7.700 vítimas de violência física, realizaram cerca de 250 mil consultas de emergência e prestaram mais de 4.200 atendimentos relacionados à violência sexual, frequentemente utilizada como arma de guerra — com mulheres e meninas entre as principais vítimas.
A crise também afeta diretamente a população infantil. Mais de 15 mil crianças menores de cinco anos foram internadas em programas de nutrição terapêutica devido à desnutrição aguda, condição que aumenta significativamente o risco de morte por doenças evitáveis.
Colapso do sistema de saúde e avanço de doenças
O sistema de saúde sudanês enfrenta um cenário crítico. Programas de vacinação foram interrompidos e a vigilância epidemiológica entrou em colapso, favorecendo a disseminação de doenças.
Segundo a MSF, surtos de sarampo, hepatite E e cólera têm sido recorrentes em diferentes regiões do país. Apenas em 2025, foram registrados mais de 12 mil atendimentos por sarampo e cerca de 42 mil casos de cólera tratados pela organização.
Hospitais também têm sido alvo direto da violência. Desde o início do conflito, em abril de 2023, mais de 2 mil pessoas morreram e 720 ficaram feridas em ataques a unidades de saúde. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Sudão concentrou, em 2025, 82% das mortes globais relacionadas a ataques contra serviços de saúde.
Além disso, profissionais têm sido ameaçados, detidos ou forçados a abandonar seus postos, enquanto ambulâncias enfrentam dificuldades para acessar áreas afetadas.
Escalada da violência contra civis
A organização também aponta uma mudança na dinâmica do conflito, com o uso crescente de drones em ataques que atingem áreas civis e infraestruturas logísticas, muitas vezes longe das linhas de frente.
Desde fevereiro, cerca de 400 pessoas foram atendidas após ataques com drones em regiões como Darfur e no leste do Chade. Dados das Nações Unidas indicam que mais de 500 civis morreram nesse tipo de ofensiva apenas entre janeiro e março deste ano.
Os relatos incluem vítimas com ferimentos graves, amputações e queimaduras, evidenciando o impacto devastador da guerra sobre a população.
Crise humanitária e falha internacional
Para a MSF, o cenário no Sudão representa não apenas uma crise humanitária, mas também um fracasso político coletivo. Após três anos de conflito, a resposta internacional é considerada insuficiente para conter a escalada da violência e evitar mortes que poderiam ser prevenidas.
Desde o início da guerra, quase 14 milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas, muitas delas em repetidas ocasiões.
A organização defende que é urgente garantir a proteção de civis, o respeito às unidades de saúde, a responsabilização por violações e o acesso humanitário irrestrito às áreas afetadas.
Sem ações concretas e imediatas, alerta a MSF, o prolongamento do conflito pode comprometer toda uma geração de sudaneses.

