Posted in

Queda de ponte expõe falhas estruturais e reacende alerta sobre manutenção no Brasil

Foto: Reprodução

Redação Plenax

A recente queda da ponte Juscelino Kubitschek, que fazia a ligação entre Tocantins e Maranhão, voltou a acender o debate sobre a precariedade na manutenção de estruturas no país. Para o engenheiro civil Carlos Henrique Siqueira, referência nacional no tema, o Brasil ainda carece de uma política pública consistente voltada à conservação de pontes.

Segundo dados do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o país possui mais de 113 mil pontes. Deste total, cerca de 11 mil estão em condições consideradas ruins ou críticas, enquanto outras 42 mil têm mais de 50 anos de uso.

“Vistoriar e manter pontes não dá voto. Esse é o grande problema. As nossas pontes estão caindo”, alerta o especialista.

Falha não está no projeto, mas na manutenção

Com mais de cinco décadas de atuação ligada à Ponte Rio-Niterói, Siqueira aponta que o Brasil possui engenharia de alto nível na fase de projeto. O principal gargalo, segundo ele, está na ausência de uma cultura contínua de inspeção e manutenção.

A ponte, considerada um dos maiores marcos da engenharia nacional, tem cerca de 13 quilômetros de extensão e aproximadamente 18 mil toneladas de aço. Mesmo com manutenção frequente, o engenheiro destaca que essa realidade está longe de ser regra no restante do país.

Risco vai além do desgaste natural

Entre os fatores de risco, Siqueira chama atenção para colisões de embarcações — tema que, segundo ele, ainda é subestimado. Dados internacionais indicam que entre três e quatro pontes colapsam anualmente no mundo após impactos com navios, cenário que pode gerar danos ambientais, prejuízos econômicos e perda de vidas.

A própria Ponte Rio-Niterói já foi atingida ao menos 12 vezes por embarcações, o que motivou o engenheiro a aprofundar estudos sobre o tema em nível acadêmico.

Manutenção é investimento, não custo

O especialista reforça que estruturas como pontes representam patrimônio bilionário e exigem cuidado permanente. Ele compara o cenário brasileiro com o dos Estados Unidos, onde há orçamento anual específico para conservação de cerca de 650 mil pontes — política fortalecida após um acidente fatal na década de 1980.

“No Brasil, ainda existe a visão equivocada de que manutenção é gasto. Na verdade, é preservação de investimento”, afirma.

Tecnologia avança, mas não resolve sozinha

Apesar dos avanços tecnológicos, como uso de drones, rapel técnico e plataformas especializadas, o engenheiro ressalta que inspeções completas ainda dependem de acesso físico às estruturas.

Soluções modernas já permitem maior segurança e eficiência nas intervenções, mas, sem planejamento contínuo e políticas públicas estruturadas, os riscos permanecem.

Episódios históricos reforçam alerta

Siqueira relembra um dos momentos mais críticos de sua carreira, em 1980, quando ventos fortes fizeram a Ponte Rio-Niterói oscilar mais de um metro, causando pânico entre motoristas. O problema foi resolvido com a instalação de amortecedores, reduzindo drasticamente o movimento da estrutura.

Para ele, episódios como esse evidenciam a importância de monitoramento constante e intervenções preventivas — medidas que, segundo especialistas, ainda não são prioridade na maior parte das estruturas brasileiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)