Por Rafael Figueroa, pesquisador em tecnologias em saúde e IA e CEO da Portal Telemedicina*
A cada inverno, os prontos-socorros públicos brasileiros repetem o mesmo roteiro: filas que crescem, corredores lotados e equipes trabalhando no limite diante do aumento de doenças respiratórias, muitas vezes agravadas por surtos simultâneos de arboviroses. Esse chamado “inverno clínico” evidencia uma fragilidade estrutural do sistema de saúde. Quando 71,5% da população depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE de 2020, qualquer pico sazonal se transforma rapidamente em crise operacional.
O mais preocupante é que se trata de um fenômeno recorrente, previsível e amplamente monitorado. A vigilância do Ministério da Saúde acompanha anualmente o crescimento das síndromes respiratórias agudas graves nos meses frios. Mesmo assim, a porta de entrada do SUS continua centrada, em grande parte, na presença física do paciente nas unidades. O resultado é conhecido: congestionamento, atrasos no atendimento e aumento do risco clínico.
Nesse contexto, a triagem digital, apoiada por inteligência artificial e integrada à telemedicina, surge como um instrumento eficaz de gestão de fluxo. Ela permite classificar sintomas, organizar prioridades e direcionar pacientes antes que ocupem espaço hospitalar desnecessariamente. No campo do telediagnóstico, algoritmos detectam padrões em exames como raio X e eletrocardiograma, sinalizando automaticamente achados suspeitos e priorizando casos graves. Essa organização reduz o intervalo entre exame e decisão clínica, um período crítico que pode definir a evolução de uma pneumonia ou de uma descompensação cardíaca.
Os resultados concretos já são visíveis. Em Tarumã, interior de São Paulo, a implementação de telecardiologia com priorização de exames remota resultou em redução de 45% nas mortes por doenças crônicas não transmissíveis em apenas um ano, considerando períodos equivalentes antes e depois da adoção da solução. Além disso, houve queda de 30% nas despesas com deslocamento de pacientes para consultas de cardiologia em 18 meses, gerando economia direta em transporte, equipe e logística. Esses dados evidenciam que acelerar o acesso a especialistas e qualificar decisões clínicas produz impacto mensurável na saúde da população.
A experiência do programa Piauí Saúde Digital mostra que esse modelo é escalável. Implantado em todos os municípios do estado, já contabiliza mais de 220 mil atendimentos entre teleconsultas e telediagnósticos, integrados ao e-SUS APS e à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Esse avanço não ocorre de forma isolada. O próprio SUS vem estruturando sua transformação digital com a criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) no âmbito do Ministério da Saúde, responsável por coordenar políticas de telessaúde, interoperabilidade e uso estratégico de dados em todo o território nacional.
Trata-se de um reconhecimento institucional de que a saúde digital deixou de ser projeto piloto para se tornar política pública estruturante. A telemedicina também oferece solução para um problema histórico: a concentração de médicos nas regiões Sul e Sudeste. Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil (USP/Conselho Federal de Medicina), o país ultrapassou meio milhão de profissionais, mas a distribuição é desigual. Plataformas digitais permitem que especialistas apoiem equipes em regiões remotas em tempo real, ampliando o acesso sem depender da presença física permanente.
A integração com a RNDS potencializa ainda mais esse impacto. Profissionais à distância têm acesso ao histórico clínico completo do paciente, incluindo exames anteriores, prescrições e comorbidades, evitando repetições desnecessárias e reduzindo erros. Transformar dados dispersos em ferramenta clínica efetiva é um passo decisivo para melhorar o cuidado e otimizar recursos.
O debate sobre custos também precisa ser objetivo. Um estudo da ABEP aponta que cada R$ 1 investido em tecnologia da informação pode gerar economia média de R$ 9,79 no ano seguinte para estados e municípios. Considerando que, em 2019, o gasto público com saúde era de R$ 3,83 por habitante por dia, eficiência operacional não é luxo, mas condição essencial de sustentabilidade.
Manter exclusivamente a lógica de expansão física significa perpetuar um ciclo previsível de sobrecarga. É hora de combinar capacidade instalada com inteligência digital, reorganizando o fluxo assistencial e garantindo que a saúde pública no Brasil não apenas sobreviva ao inverno, mas se torne mais eficiente, segura e equitativa.
A telemedicina no SUS já se consolidou como ferramenta estratégica para ampliar acesso, reduzir custos e qualificar o atendimento, apoiada por programas como o Telessaúde Brasil Redes e por parcerias com a iniciativa privada que aceleram inovação e capacitação técnica. O desafio agora não é provar sua utilidade, mas expandir cobertura, fortalecer infraestrutura e garantir que a transformação digital alcance, de forma consistente, todos os brasileiros.
*Rafael Figueroa é empreendedor serial e especialista em machine learning, com impacto em 30 milhões de pacientes por meio de soluções de inteligência artificial em saúde, e CEO da Portal Telemedicina.

