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Violência sexual na infância deixa marcas silenciosas que podem emergir décadas depois

Foto: Divulgação

Redação Plenax

Com mais de 74 mil vítimas registradas em um único ano no Brasil, a violência sexual contra crianças e adolescentes segue como uma das mais graves e complexas violações de direitos no país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam 74.930 casos de estupro em 2022 — o maior número da série histórica, equivalente a mais de 200 ocorrências por dia.

A maioria das vítimas tinha até 13 anos, o que caracteriza estupro de vulnerável. Em cerca de 70% dos casos, o crime ocorre dentro de casa e, frequentemente, é cometido por alguém próximo da família, evidenciando a dimensão íntima e silenciosa dessa violência.

Trauma que não se revela de imediato

Para especialistas, o impacto da violência vai muito além do momento do abuso. O trauma psíquico, em muitos casos, não se manifesta de forma imediata — ele pode permanecer latente por anos, até que encontre condições para ser compreendido.

A psicanalista Camila Camaratta explica que o trauma não se resume ao evento em si, mas àquilo que não pôde ser elaborado no momento em que ocorreu. “Muitas vezes, a experiência surge primeiro como dúvida, estranhamento ou sensação de irrealidade. O psiquismo ainda está tentando dar sentido ao que foi vivido”, afirma.

Segundo ela, quando uma experiência acontece de forma precoce ou abrupta demais, antes que a criança ou adolescente tenha recursos emocionais e simbólicos para compreendê-la, ela pode se fixar como um núcleo não elaborado, reaparecendo mais tarde em forma de angústia, dificuldades afetivas e conflitos com o próprio corpo.

Violência, vínculos e pertencimento

Casos recentes também têm ampliado o debate sobre fatores sociais e psicológicos envolvidos na violência, incluindo episódios cometidos por adolescentes em grupo. Durante discussões públicas sobre o tema, a juíza Vanessa Cavalieri destacou que atos extremos nem sempre estão restritos a contextos de vulnerabilidade econômica.

Em alguns casos, jovens inseridos em ambientes estruturados buscam, de forma distorcida, pertencimento, validação e reconhecimento — necessidades humanas fundamentais que, quando não atendidas, podem se expressar de maneira violenta.

Ambientes digitais e comunidades extremistas podem funcionar como espaços de acolhimento distorcido, oferecendo identidade e validação, ao mesmo tempo em que reforçam comportamentos agressivos e desumanizantes.

Dinâmica de grupo e banalização da violência

A atuação em grupo também é um fator relevante. Como já analisava Sigmund Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, o comportamento coletivo pode enfraquecer limites individuais e diluir a responsabilidade pessoal.

Nesse contexto, o indivíduo tende a agir sob influência do grupo, muitas vezes validando condutas que, isoladamente, não adotaria. Essa dinâmica pode favorecer a escalada da violência e a objetificação do outro.

Sexualidade mediada por imagens

Outro elemento apontado por especialistas está ligado às transformações na forma como adolescentes entram em contato com a sexualidade. Com o acesso precoce e praticamente ilimitado à pornografia, muitas vezes antes dos 12 anos, a sexualidade passa a ser vivida inicialmente como imagem — e não como experiência relacional.

Esse contato precoce, quando não mediado ou compreendido, pode ter caráter invasivo e contribuir para distorções na forma como o desejo, o corpo e o outro são percebidos.

Em determinados ambientes digitais, narrativas que associam relações afetivas a dominação, competição ou ressentimento — como as difundidas em comunidades da chamada “machosfera” — podem reforçar visões desumanizadas, especialmente em jovens em processo de construção da identidade.

Possibilidade de elaboração

Apesar da gravidade, especialistas ressaltam que o trauma não determina, de forma absoluta, o destino psíquico de uma pessoa. Entre o acontecimento e a história de vida, existe a possibilidade de elaboração.

Quando a experiência encontra escuta, reconhecimento e linguagem, o que antes era indizível pode começar a ser simbolizado. Nesse processo, o sofrimento pode ser integrado à história do sujeito, abrindo espaço para reconstrução e cuidado.

Mais do que o que aconteceu, o trauma também é aquilo que, por muito tempo, não pôde ser dito — e que, quando encontra voz, pode começar a ser transformado.

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